Armada, de Ernest Cline

(Atenção! Spoilers em todo o texto. Para a versão sem spoilers, aguarde o dia em que eu escrever uma, ou busque reviews de outros lugares). 

Livro de ficção científica mais ou menos divertidinho, que me levou algumas semanas para ler. O tamanho é considerável: são mais de quatrocentas páginas de "aventuras" (digamos). A premissa dele é a de que um adolescente vivendo em 2018 (ou seja, "na nossa época") descobre que o mundo é uma grande conspiração, e que videogames são na verdade um treinamento para a iminente invasão de aliens. A premissa parece divertida! Dizem que é clichê (tem alguns filmes aí, ou mesmo outros livros, com ideias muito parecidas), mas como não sou o maior consumidor de ficção científica do mundo, não estou muito a par.

A ideia em si é legal, mas muito mal desenvolvida. O Ernest (autor do livro) não escreve muito bem. Os personagens são meio sem graça, ou "rasos" (como se costuma dizer), e tudo o que eles fazem é descrito de uma maneira sumária e sem sal. Exceto as guerras entre as navinhas: aí sim ele entra em detalhes bem minuciosos, mas de uma maneira atabalhoada e confusa. Aí ele cai no outro extremo, que é deixar a narrativa meio confusa e cansativa. Mas são batalhas ágeis, apesar de tudo.

Existe um subplot (ou melhor, na verdade é um dos plots principais) do pai do cara, que tinha morrido e na verdade não morreu. É um tipo de livro que telegrafa os seus plot twists: em diversos momentos, só faltou o autor dizer, "ei, veja só, ele talvez não tenha morrido, hein, há há", ou seja... não é um negócio muito bem concebido. 

Par romântico que nem deu tempo de virar romântico

Pois é, aí o livro joga para você, em um certo momento, um parzinho romântico para o protagonista (o tal adolescente citado acima), apenas porque sim. Não tem nem sentido, ele vê ela do nada e os dois meio que já se gostam. Não morrem de amores e tal, mas já trocam olhares, aquela coisa toda. Nem com muita boa vontade (mesmo) dá pra encarar esse não desenvolvido affair do protagonista. É um dos pares românticos mais mal desenvolvidos que eu já vi. 

Mesmo se fosse um filme bem bobo, feito só para divertir, seria já ruim, e quanto mais num livro, que (geralmente) pede que isso seja mais bem trabalhado. Eles passam a se gostar totalmente do nada. Talvez dê pra dar a desculpa de que essa é uma auto-indulgência "adolescente", como se fosse um garoto escrevendo os seus sonhos mais absurdos (torcendo para que eles virem realidade), e que isso entraria num certo espírito fantasioso do livro. Só que o livro em nenhum momento te prepara para isso, e tudo é feito e jogado com a sutileza de um elefante. Não funciona. 

A personagem moça do par romântico é composta como uma espécie de Angelina Jolie do filme "Hackers", ou seja, uma mocinha que é nerd e ao mesmo tempo gostosa. Ela bebe numa garrafinha em formato de R2-D2, faz piadinhas com referências à cultura pop (aliás, abundantes em todo o texto), enfim, é o cenário perfeito. O livro se acaba nessas referências aí, dá até pra ver o autor (provavelmente um nerd quarentão reprimido) se contorcendo de prazer em cada uma das referências, gratuitamente oferecidas ao leitor.

Mas voltando ao par romântico, menciono-o por ele ser um dos exemplos mais bem acabados da "qualidade literária" do livro (ou da falta dela): ela aparece do nada, se apaixona pelo cara do nada, some do nada, reaparece no final do nada. E, do nada, salva ele na guerrinha com os aliens. Tudo sem qualquer elo ligando uma coisa a outra. 

Pode até não parecer grande coisa, e até soa meio que divertido (e até é, em parte). Porém, o resultado estético e, digamos assim, o efeito disso tudo no leitor, é de um tédio e de uma desilusão que aborrecem a leitura. É um tipo de escrita que faz você se sentir burro, como aquela sensação estranha e ruim que dá quando vemos algo mal feito se esforçando muito para ser bom. É uma sensação de não engajamento, que realmente compromete a leitura.

A guerrinha com os aliens e a invasão em três ondas

Aí então tem a parte da guerrinha com os aliens. A guerra é, no geral, desinteressante e confusa. Eles demoram muito pra chegar (são originários do satélite Europa, uma lua do planeta Júpiter). Eles chegam em três ondas, cada uma mais lenta que a outra. Em nenhum momento, é explicado por que os seres humanos não mandam naves pra interceptar os caras (na verdade, talvez tenha sido explicado, mas se foi, ficou perdido na narração confusa do livro). E aí boa parte das quatrocentas e mais páginas do negócio, é aguardando essa invasão e os personagens interagindo uns com os outros. Pois é...

O romance tem a concepção confusa de tornar os videogames reais, mas ao mesmo tempo, não tornar a coisa tão real assim. Explico: o personagem principal (de nome Zack Lightman - um bom nome, até) sempre joga um joguinho chamado "Armada", que é inclusive o título do livro. Pois bem, aí que esse tal Armada é o treinamento exato de como operar drones para combater a invasão alienígena. Então a guerra vai ser real - porém, operada por drones! Em raras ocasiões, alguém vai lá de verdade e guerreia com a navinha mesmo.

O livro, então, falha um tanto em dar essa sensação de "perigo", que uma obra do gênero deveria causar. E, no mais, como é algo geralmente mal escrito, fica difícil se importar com alguma coisa que está acontecendo. Você só quer avançar a leitura e ver se, finalmente, alguma coisa interessante acontece. O que nem sempre é o caso...

Outro destaque (negativo) são os nomes dos bonequinhos aliens (navinhas, robozinhos, etc). Tirando os "caças Glaive", que tem um nome bacanudo (dá até pelo nome pra imaginar um formato legal de uma nave bem high-tech alienígena, cheia de ângulos e tal), os outros são uns nomes ruins, mas ruins mesmo, de doer a vista quando se lê. Tem um tal de drone (que até agora não entendi o que é), chamado "DITHAB" (assim mesmo, em maiúsculas, pra doer ainda mais a vista). Seria um acrônimo para "drone tático alguma coisa", que virou esse palavrão aí.

Olha o nome do treco. Parece coisa do governo, tipo "FGTS", como se fosse algo pra sacar no banco, alguma coisa chata e burocrática. E pior que é um "personagem" que aparece bastante no livro (e que nunca é muito bem explicado, ficando difícil de ser visualizado). Dá vontade de fechar o livro, toda vez que um "DITHAB" aparece ou algum outro androide com um nome tosco.

E eu achei que isso era um resultado da tradução mal feita (aliás, isso daria um outro capítulo à parte: o livro sofre com uma tradução claramente apressada e mal revisada). Mas no original em inglês, eles são os "ATHIDs", ou seja, não sei qual deles é pior. Pode-se criticar o Star Wars o quanto quiser, mas veja só como os nomes são bem escolhidos: R2-D2 soa bonitinho em inglês (algo como "artchú ditchú", hehe), você tem as navonas más que são "Star Destroyers" (nome imponente), etc etc. Essa parte não é trivial, tem que ser um nome bem escolhido, pra compor um cenário legal de ficção científica.

Pois bem, aí a guerrinha encerra com uma liçãozinha de moral, e blá blá blá.

Vale a pena ler?

Até vale. Mas não muito. O livro não é muito bom. Dizem que o autor lançou um livro antes desse que fez muito sucesso (um tal de "Jogador Número 1"), mas eu não li. Considerando as qualidades deste aqui que estamos analisando, não me empolgo muito pra tentar, ainda que eu fique levemente curioso. O "Jogador Número 1" virou um filme, que eu não vi também. O "Armada" parece que foi comprado aí por algum estúdio também. E é bem isso, parece que ele faz um livro não pelas suas qualidades enquanto livro, mas pra virar algum roteiro e caçar alguns cifrões vendendo-o a um estúdio (na verdade, como roteiro de filme, até parece um pouco promissor).

Não é um livro de todo ruim. Até tem suas qualidades. A leitura é ágil. Há alguns bons momentos. O início do livro eu achei especialmente legal. Ele cria um certo clima de mistério, algo meio suburbano e banal, de um garoto que vai pra escola numa cidade genérica americana e fica sonhando com os anos 1980 perdidos (e que forma o elo dele com o pai, que ele achou que tinha morrido). Ele até vai no porão e fica fuçando as coisas antigas do pai (videogames, fitas de vídeo, etc). Até tem uma cena, descrita no início do livro, que eu achei muito legal: que é quando o Zack encontra a jaqueta do pai com os badges da Activision (que são pequenas costuras coloridas, que você ganhava quando batia recordes no jogo). Essa jaqueta chegou a ser usada numa das capas de alguma edição deste livro, e forma uma imagem muito legal.

Então até vale, se você não tiver muito mais o que fazer, e tiver curioso. Mas certamente tem coisa muito melhor aí pra ler, mesmo no gênero ficção científica. Não é um grande livro, e algumas partes chegam a ser realmente muito ruins, mas dá pra encarar.

As capas das edições de "Armada"

As capas deste livro são um capítulo a parte. Tive contato com duas. A edição do livro que eu tenho é uma verdinha, com alguns motivos triangulares, estilo "bandeirolas da casa do Seu Madruga" (aqueles triangulinhos pontudos que parecem umas bandeirinhas). É uma capa muito bonita, realmente. Transmite bem a sensação que é o tema do livro, que é videogame com guerrinha, com distopia e mistério, e coisa e tal.

Mas a outra capa eu achei melhor ainda. É uma imagem muito boa, mesmo. Dá vontade de ampliar e mandar fazer um quadro dela. É só uma pena que a capa seja tão excepcional para um livro tão medíocre. A capa é o garoto sentado numa poltrona jogando o "Armada", com controles de manche de voo, e com a jaqueta (já acima mencionada), com as tais inscrições da Activision. Realmente muito legal!

(Aqui você pode imaginar as capas dos livros.jpg, que talvez um dia eu edite e coloque aqui pra vocês. Google nas capas também resolve).

Ou seja, é um livro que tem um valor estético de capa muito legal (de verdade, não é ironia). Fica bem na estante e adiciona algum prazer à leitura.

O livro anterior do Cline, que é melhor que esse

O tal do "Jogador Número 1", que é o livro anterior do Ernest Cline, fez aí algum sucesso e muita gente o elogia. Tem referência aos anos 1980, à cultura nerd, toda essa coisa. Então foi uma pequena guloseima aí para os famintos por nostalgia pop da já citada década. O "Armada" também foi muito bem vendido, mostrando que, provavelmente, ele contém elementos que atraem muitas pessoas. É uma leiturinha despretensiosa, dá pra encarar mesmo. Poderia ser bem mais divertida.

O Cline, pelo que eu andei lendo, é um cara que adora enfiar referências nerd e de cultura pop nas coisas que escreve. No "Armada" isso fica bem claro. Ele coloca um monte de referência meio que do nada. E é do nada mesmo, não é alguma coisa que sirva para avançar o roteiro ou para compor personagens, nem nada disso. É só a referência pela referência mesmo, como um episódio de "Big Bang Theory", só que bem grande e na forma de guerrinha. 

E fica sempre aquela sensação, algo desagradável, de você não fazer "parte do grupo" por não entender alguma das referências. Como naquelas conversas auto-adulatórias, em que um grupo de pessoas mais velhas que você fica lembrando de coisas que só eles lembram, com a intenção de excluir o resto da conversa (e se sentindo superior a elas por isso). O livro é como se fosse um grande exercício disso. É sempre um negócio do tipo, "oh, remember that from that movie/tv series/qualquer coisa? those were the days, huh?". É um tipo de tapinha nas costas algo constrangedor, desnecessário para o livro.

Aí tem o "Jogador Número 1", que é o livro anterior dele, que fez muito sucesso. Inclusive na capa do "Armada" ele é vendido como o "novo sucesso do autor de Jogador Número 1". É bem provável, então, que este Armada seja uma tentativa rápida e algo apressada de ganhar alguns dólares em cima do sucesso do primeiro livro - o que é uma opção bem duvidosa, já que, considerando que ele só tem dois livros lançados, já pode ter comprometido metade da carreira dele, de cara. Dinheiro que vem fácil, vai fácil.

Zack Lightman assentiu, Zack Lightman sorriu

Vale mencionar rapidamente esse defeito do livro: a falta de riqueza nas descrições dos detalhes. Enquanto os detalhes são abundantes nas guerrinhas de naves (até de uma maneira confusa e deselegante), os diálogos e as ocorrências não navinhísticas são descritas com uma pobreza digna de nota. Tudo que alguém faz é: fulano assentiu, fulano sorriu. Aliás, não dá pra entender porque tanta gente sorri neste livro. Não está em guerra? O mundo não vai acabar? Falta tensão e um mínimo de realismo, mesmo que o objetivo seja ser uma aventura cheesy, algo que não se leva a sério. Mas também falta humor, para algo que não se leva a sério.

Os personagens sorriem porque eles se auto-congratulam com suas mútuas referências à cultura pop. Tudo isso tem um ar de tiozão (que geralmente já está fora da realidade, preso ao seu passado de nostalgias), que fica lembrando das coisas antigas, e toda hora dizendo, "those were the days, huh? remember that one?", como se a vida fosse um grande passeio pela sua fase favorita do Mario (e pior que isso, a lembrança eterna de que "aquilo sim que era época"). Uma versão mais moderna dos tiozinhos lembrando daqueles insuportáveis bailinhos em que ouviam "Whisky a Go-Go" e dançavam de rostinho colado com a sua mãe. Deus meu...

E aí Zack sorri, Zack assente. Porque o narrador não consegue dizer nada mais criativo para as situações de diálogos do livro. Lembra um livro que eu li sobre nazistas (que vale uma resenha aí em algum momento), que depois virou até filme com o Donald Sutherland (pai do Jack Bauer). Naquele livro, todo personagem, toda hora, em toda a situação, "puxava um cigarro". Então tudo o que você via, era alguém falando algo e "fulano então puxa um cigarro, e fala". É muito chato isso, e cansa muito rápido.

Esses livros deveriam vir com uma nota, já no prefácio, dizendo: "em todas as situações deste livro, o personagem, em qualquer momento, vai pegar um cigarro do bolso, vai fumar, e continuar o diálogo; subentenda-se isso em todas as passagens". E, no caso do Armada, que alguém sorriu ou alguém assentiu.

Nota para o livro: 3/5

Dou essa nota porque, apesar de tudo, é uma experiência bastante lível. E sim, digo "lível" mesmo, pois "legível" não expressa bem o que eu quero dizer. É um livro lível. Ele existe. E isso é bom. Não é uma ironia, pois apesar de tudo, escrever alguma coisa (qualquer coisa) é sempre algo muito difícil, então méritos para quem o fez. Então é uma coisa existente e não o nada. Só isso já dá um ponto.

Os outros dois pontos eu dou porque o tema em si é excêntrico o suficiente para ser divertido. Tem aliens, tem navinhas, tem mistério, tem essa coisa meio intangível de americano suburbano tentando encontrar sentido na sua vida, na sua adolescência, etc. Isso apela para um certo valor afetivo, de quem cresceu vendo filmes desse tipo ao longo dos anos 1980. Então o livro funciona como uma grande "sessão da tarde", apelando para certas memórias e para o brilho que essa realidade americana romantizada tem.

Mas poderia ser muito melhor. Não precisa ser o "Grande Sertão: Veredas" da ficção científica, mas poderia ser divertido. O livro é engessado. Os diálogos são engessados. O romancezinho do protagonista é risível e não tem nenhuma função no livro, a não ser gerar uma gostozilda geek para o nosso amigo protagonista ficar feliz. Outros personagens são completamente irrelevantes e todos soam meio iguais. 

Apesar de tudo isso, é até agradável, se não levar muito a sério. E as capas são muito legais.

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