As Pupilas do Senhor Reitor, de Júlio Dinis

Resolvi tirar esse aviso de "com spoilers" em todo título, pois fica chato e repetitivo postar toda vez isso. Mas chato por chato, prefiro avisar, pois sou bastante rigoroso com spoilers (nada pior do que um estragando a leitura, não é mesmo). Então está aqui avisado: tem spoilers.

Mas enfim, livro muito surpreendente, achei que seria uma grande porcaria e acabei gostando bastante. O Júlio tem um estilo de escrita bastante agradável, é como se ele "afofasse" todas as frases que ele coloca, todas tem um ar de imponência e simplicidade simultâneas que realmente agrada bastante a leitura. É como se toda frase dele viesse com almofadinhas do lado, tudo bem acolchoado e macio, mas sem que isso se torne um exagero. É um estilo de escrita elegante e simples.

Na verdade, esse livro foi um folhetim (espécie de novelas publicadas em jornal) do século XIX, lá em Portugal, e fez muito sucesso por lá. O público acabou gostando bastante, então depois acabou virando um livro. A história foi já republicada e regurgitada de diversas maneiras, durante mais de um século, em diversas versões e mídias diferentes. Aqui no Brasil, virou uma novelinha do SBT (até lembro de ter visto quando criança, e é impossível não imaginar o reitor na figura do Juca de Oliveira, que o interpretou na época).

Eu tinha visto a novela assim ocasionalmente, só uma cena ou outra quando passava na tevê, mas não lembrava da história exatamente. Então o livro não começou com "spoilers" para mim. Não conhecia nada do que iria se desenrolar, a não ser o fato de que tem um reitor (e de que tem pupilas), então a leitura ocorreu normalmente sem grandes surpresas.

Uma historinha mamão-com-açúcar, mas um bom mamão-com-açúcar

É uma historinha levinha, que não machuca ninguém, e o Dinis consegue jogar uma luz otimista (também de maneira bem leve) em tudo o que ele vê. Os personagens são bons, às vezes um pouco maus, mas nunca exatamente muito maus. É como se houvesse uma crença implícita na bondade do ser humano, o que pode soar aqui piegas, mas que funciona bem ao longo do livro. Ele passa essa sensação "boa" quando o lemos, de que as pessoas não possuem grandes maldades dentro de si e que tudo se resolve no final (eu sei, bem padrão "novelinha" mesmo, mas ficou bem feito aqui).

O roteiro provavelmente é previsível, mas tem algumas viradas (viradinhas) suficientes para tirar o leitor um pouco da cadeira. Não é como se ele fosse ficar muito empolgante, mas o estilo agradável com o que o autor apresenta as situações acaba compensando a historinha mais morna. Há alguns detalhes interessantes, que flertam com o "picante", mas sempre de uma maneira bastante recatada: por exemplo, há uma passagem bem divertida, quando todos na aldeia vão desfolhar o milho, e aí é tradição que todos fiquem mais liberais e flertem (de maneira leve) uns com os outros. A tensão que se cria entre esse evento (que seria uma espécie de pequeno "carnaval", em que papeis sociais e convenções são postos de lado) e o conservadorismo da aldeia, é muito bem colocado. Durante a desfolha, é aceitável que um dê em cima do outro e se comporte de maneira mais solta, e mesmo personagens mais conservadores em outras ocasiões, defendem esse "estatuto" e aceitam essa liberação momentânea sem maiores problemas.

Essa tensão é uma marca de todo o livro. O reitor, por exemplo, é um personagem surpreendente, pois ele se mostra muito mais liberal que os próprios moradores da aldeia. O livro se trata, em boa parte, do reitor tendo que ter um "jogo de cintura" para aplacar os desejos conservadores dos moradores (que são basicamente uns religiosos moralistas) e, ao mesmo tempo, não ferrar com a vida de ninguém (principalmente das suas pupilas). As passagens em que o reitor cita até a Bíblia para explicar certas opções mais liberais e para justificar algumas mentiras que ele conta para resolver as situações dos personagens, são engraçadas e mostram que, nessa vida, tudo se justifica. Mas, por outro lado, as situações são tão inofensivas (para os nossos padrões atuais), que isso não fica algo tão dissonante. Então conseguimos compreender o reitor, de maneira bastante natural.

Li o livro numa edição da Biblioteca Folha, é a edição que eu tinha em mãos aqui, e peguei casualmente o livro só pra ver qual é que era a dele. Como já disse, a leitura foi uma surpresa, correu muito agradável e com algumas passagens não tão melosinhas e bobas assim. É um livro que, ainda que seja mamão-com-açúcar, contém detalhes e sutilezas interessantes, como o reitor sendo mais liberal, a tensão entre a aldeia e a cidade (simbolizado principalmente pelo personagem médico Daniel, que volta da cidade do Porto para a sua aldeia), o otimismo do autor etc. Só que o problema é que essa edição é meio cagada, pois em muitos momentos o "era" é substituído por "em", provavelmente um erro de uma transcrição computadorizada que não foi revisada. Mas tirando isso, dá pra encarar.

Clara e Margarida, duas pupilas bonitonas e que todos dão em cima

Não sei se eu tô viajando (provavelmente tô), mas a impressão que me dá, ao ler o livro, é que todos ficam babando o tempo inteiro em cima dessas mulheres. E o autor, ainda que de maneira distanciada e bastante respeitosa, consegue valorizar a beleza e graciosidade delas, com descrições físicas bastante cuidadosas. Dá pra notar como o autor tem um olhar especial para a beleza no geral, não só das mulheres ou mesmo dos demais personagens, mas das paisagens de Portugal e do cenário campestre e provinciano. É como se, durante a leitura, toda hora as cenas fossem fortemente iluminadas, e você conseguisse visualizar os cenários bonitos e de cores contrastantes, e as mulheres bonitonas lá bem vestidas e todas muito charmosas. Enfim, moral da história, você facilmente se apaixona pelas personagens e por todo o ambiente.

É um livro envolvente, ainda que não seja exatamente brilhante e que não tenha uma história exatamente emocionante. O roteiro em si é simplório, trata de um affair envolvendo dois irmãos de características diferentes (um é roceiro, o outro é intelectual), e duas irmãs (uma é santinha, a outra é mais safadinha), e a coisa se desenrola dessa maneira. Em certo momento, o irmão médico, que volta com o pau na testa da cidade do Porto (e o autor deixa isso bem claro, então não sou eu que estou dizendo), começa a dar em cima de todas as mulheres da aldeia, o que abala as estruturas conservadoras do local. Bem, não exatamente "abala", mas gera uma fofocada, que aliás é bem divertida ao longo do livro. Inclusive em uma das passagens, os pais de uma das meninas só faltam rifar a filha para o médico bonitão, ou seja, o livro é ingênuo e otimista mas nem tanto. 

Então é uma ingenuidade calculada, ela não é uma ingenuidade realmente ingênua, ela é trabalhada pelo autor para dar um certo efeito estético e dar uma chacoalhada nas coisas. E é uma ingenuidade entremeada por alguns detalhes que dão uma quebrada nela, o que torna o livro mais interessante. Ou seja, em outras palavras, é um livro que só parece "bobinho", não é tão bobinho assim, e o autor sabe jogar com isso ao longo da narrativa.

A Clara seria a pupila mais atrevida, ela logo se apaixona pelo irmão mais roceiro (o Pedro), mas não se importa em dar corda para as investidas do irmão taradão, o Daniel. Não são personagens complexos, mas também não chegam a ser rasos, Clara não é nenhuma "Capitu", mas conseguimos nos afeiçoar a ela e entender algumas de suas opções e alguns detalhes psicológicos dela. É um livro leve, mas não tolo, e os personagens, ainda que não sejam aprofundados, são suficientemente detalhados para compor a narrativa. E aí a Margarida é a pupila mais santificada, a personagem é toda idealizada como a boazinha da história, que aceita as porradas de forma abnegada, até o velho clichezão da madrasta malvada ela encara em certo momento. 

Margarida toda hora se dispõe a se sacrificar para o bem dos outros e não para o seu, mas dá pra notar um certo tom de ironia aí no autor, pois sempre se fica com a impressão de que ela está no fundo se dando bem, mas sem fazer um grande alarde sobre isso (e bancando a santa no processo). Enfim, então esse livro tem esse olhar todo especial em relação às mulheres, retrata-as de maneira bela e elogiosa o tempo todo, ressaltando suas qualidades (como o fato de a mulher ser "forte", ter um coração "bom" e coisas do tipo). Não são elogios que apelam para os tempos atuais, muito mais voltados a outro tipo de feminilidade, mas mesmo assim mostra o carinho que o autor tem em relação a elas, com suas características morais e mostrando um certo "quê" de sensualidade recatada.

O plot twist telegrafado, mas que não é tão telegrafado assim

Aí a história segue o roteirinho, tudo bem leve, e os capítulos (como eram publicados em folhetim) deixam uma ponta solta no final, para puxar a leitura para o próximo capítulo, ou seja, a leitura vai indo fácil. É um pouco fácil também ver para onde vai a história e que "tudo vai dar certo no final", mas a história é bem feitinha e bem contada, e isso não chega a ser exatamente muito prejudicial. É aquelas histórias em que você sabe o que vai acontecer, mas que gosta mesmo assim, pois o autor conta de uma maneira bacana e interessante.

O legal é ver como o reitor é esse cara "prafrentex", tem algumas concepções mais avançadas e liberais sobre o ser humano e sobre a vida no geral. Ele pega a Clara pulando a cerca com Daniel (ou quase isso), mas mesmo assim sabe que isso não importa e começa a armar para que tudo se resolva no final e todo mundo se ajeite. O reitor, na verdade, é menos uma figura religiosa e mais uma espécie de "faz-tudo" na aldeia, funcionando como uma autoridade informal que dá conta de aplacar os ânimos de todo mundo e harmonizar os conflitos. E ele chega até a se contrapor a umas carolas que são religiosas fanáticas e que sofrem reprovação geral da aldeia por seu fanatismo. 

É como se aldeia fosse sim conservadora, mas é um conservadorismo controlado, nunca muito exagerado, e o fanatismo e o extremismo religioso mesmo nessa aldeia não seria aceitável. O livro é muito feliz em mostrar isso (ainda que de maneira bem rápida), mostrando que essa aldeia não é um pedaço de cartolina raso e simples, mas algo mais complexo e nuançado do que parece ser. A aldeia joga com certo conceito liberal (de liberação dos costumes) o tempo todo, seja na festa mais solta da desfolhada, seja na crítica às fanáticas religiosas ou mesmo na postura mais tolerante do reitor.

A escrita de Dinis é mais ou menos engenhosa para que a virada no roteiro no final seja óbvia, mas não tão óbvia assim. Vamos aos poucos saboreando os detalhes que ele vai acrescentando e a maneira (algo elegante) de resolução dos conflitos que foram colocados. A história então, mesmo com o seu final óbvio e com suas reviravoltas previsíveis, consegue ficar interessante até o final.

Autor que fala com o leitor e texto bem-humorado 

O texto, ainda que seja o clássico mamão-com-açúcar e seja bem levinho e tranquilo ao longo dele, contém um ótimo senso de humor, igualmente leve mas muito bem feito. Algumas passagens são divertidas e conseguem tirar uma risada do leitor. Eu mesmo ri (por fora mesmo, não apenas "espiritualmente") em alguns momentos, ou seja, o humor funciona bem e torna a leitura (que já é agradável) ainda melhor. O livro tem um bom ritmo, os diálogos são bem feitos, nunca você fica cansado demais ou então aporrinhado com alguma descrição longa e irrelevante. 

O autor tem essa característica, provavelmente comum em folhetins da época, de se dirigir diretamente ao leitor. É engraçado que muitas vezes ele faz isso visando ao público feminino (que, pelo que eu andei pesquisando por aí, era o maior consumidor de folhetim mesmo), o que dá um ar interessante e pitoresco à leitura. Sempre que isso acontece em textos mais antigões (esse aqui é de meados do século XIX), dá um contraste legal, pois é um ar moderno para uma coisa de mais de cento e cinquenta anos atrás. Isso não é feito com grande frequência, mas quando acontece, chama bem a atenção e a leitura fica mais leve (já sendo leve, na verdade).

Não chega a ser um grande livro, a história não é lá grandes coisas, mas tem algumas características inseridas de maneira sutil, que tornam ele maior do que parece na superfície. O reitor mais liberal, a tensão sexual que passa por todo o livro (e que nunca chega a ir para a superfície, mas que fica lá), o tom de comentário sobre a vida da aldeia, a beleza e o otimismo das personagens e das situações etc. São pequenos momentos que vão impulsionando a leitura e tornam a historinha mamão-com-açúcar algo mais que isso.

Nota do livro: 4/5

É um livro realmente surpreendente, e a leitura, se não exatamente empolgou, agradou. Não é um livro que vai deixar você na ponta da cadeira em nenhum momento, não tem lá um grande suspense (mas tem um pouco), tem alguns detalhes sutis que deixam você pensando (e que mostram que as coisas não são bem como elas parecem ser), ou seja, é um livrinho que parece bobo mas que não é tão bobo assim. 

O que mais vale no livro é o jeito que o Dinis escreve mesmo. Difícil apontar exatamente qual a qualidade que o torna bom, mas você lê e nota isso, ele fala as situações sempre num tom não agressivo, quase que de boa vontade, e isso acaba passando para o leitor de uma maneira legal. É como se você sentasse com um amigo que sabe contar bem uma história e que consegue prender sua atenção, o Dinis tem essa característica. Alguns podem dizer que não é a coisa mais genial do mundo, e que este seria um autor banal (não sei), mas não me pareceu. 

O sucesso do livro ao longo do tempo é uma prova de sua qualidade (será?). Bem, algo nele agradou muita gente, é uma historinha de relacionamentos amorosos contada de maneira mais ou menos bem feita, com um tom elegante de exposição, ao mesmo tempo que é leve e não subestima (muito) a inteligência do leitor. Uma leitura aí que vale a pena, se você quer distrair a cabeça com uma historinha sem grandes consequências.

Comentários