São Bernardo, de Graciliano Ramos

Vai ser um pouco difícil falar desse livro, pois já faz uns meses que eu o li, e devo confessar, esqueci a maioria das coisas. Mas como a proposta deste blog é ser isso aí mesmo, um local informal onde eu falo o que penso sem grandes frescuras, vou fazer isso aí mesmo.

Enfim, um livro que até que eu gostei, mas esperava mais dele. O Graciliano Ramos faz parte daqueles nomes de "grife" da literatura brasileira, uma garantia de que você terá um livro muito bem comentado, muito elogiado, e essa coisa toda. O livro é, certamente, utilizado por aí em vestibulares (você aí, estudante que me lê: não use isso como pesquisa!), é estudado aí pelos sabichões da literatura, ou seja, é quase que um clube de discussão e não um livro/autor.

Já havia lido o Vidas Secas em outra época remota da minha vida e lembro que gostei bastante, inclusive tem passagens bem dolorosas envolvendo animaizinhos (a cachorra Baleia), e estava familiarizado com o estilo seco e direto do autor, e suas passagens que são ao mesmo tempo bem descritivas e emocionais. 

O livro aqui parece um pouco isso. Fala de um cara que é dono de uma fazenda, que é rico, e suas "aventuras" em busca dessa riqueza e na administração da sua fazenda (a fazenda São Bernardo, que é o título do livro). Mas a narrativa, que eu achei que iria me empolgar mais, não me empolgou tanto assim, mas reconheço que é um livro bom e a leitura corre fácil, você não devora as páginas do livro mas se vê interessado o suficiente para avançar com celeridade na leitura.

(Atenção! Spoilers em todo o texto. Se você pretende o ler e não quer revelações de enredo, pare a leitura aqui).

Obra consagrada, mas eu não achei grandes coisas

Bom, qualquer pesquisa rápida aí vai mostrar que esse livro é idolatrado pela galerinha sabedora dos paranauê da literatura, e como não é tanto o meu caso (desculpa aí), não consegui enxergar nele todas as grandes qualidades mencionadas. É um livro bom, não há dúvida nenhuma, mas a diferença entre a minha experiência de leitura (que seria simplesmente mentiroso eu dizer que foi "empolgante") e a descrição e avaliação que fazem do livro (colocado como uma obra-prima do autor), é bastante grande.

O livro é ágil. Acho que o Graciliano tem um estilo de escrita muito parecido com a de um jornal, no bom sentido da coisa. O que eu gostei nele é que os personagens vão se sobrepondo uns aos outros, de maneira rápida, mas sem que isso os torne rasos ou muito desimportantes. Todos eles tem sua importância na trama, mas o autor consegue ser habilidoso o suficiente sem que isso fique muito longo, e sem comprometer a velocidade com que ele imprime ao texto.

As descrições da fazenda São Bernardo são boas. Inclusive me ferrei ao, por curiosidade, buscar o filme desse mesmo livro (um filme aí brasileiro de algumas décadas atrás). A fazenda no filme era muito mais feia do que a que eu imaginei pelas descrições do Graciliano, e as partes internas como salas e quartos, muito diferentes do imaginado. Na minha imaginação, eram espaços amplos, algo rústicos, e no filme eram espaços menores e mais pobres. Enfim, é sempre uma armadilha ver filmes de livros bons, você substitui para sempre a imaginação do livro pelo que foi filmado e quase sempre isso é feito sem ganho algum.

Aí a história é o cara lá fazendo as tretas pra ampliar a fazenda dele, tem os personagens acessórios que puxam o saco dele (e alguns inimigos), tudo é narrado em primeira pessoa e isso torna o livro bem interessante, pois vemos tudo do ponto de vista desse cara aí. O protagonista Paulo Honório é o narrador e ele funciona como uma espécie de anti-herói, é um cara meio mau caráter mas que você passa a simpatizar de alguma forma. Enfim, é esse tipo de personagem, algo dúbio na sua postura, e isso é um tanto interessante.

E então ele conhece lá uma moça, casa com a moça, e isso passa a ser, de alguma maneira, o centro da história. Aí rola alguns plot twists, pra dar uma temperada na coisa, e fim.

E então, sei lá

Bom, que nota que poderia dar para esse livro? Na época em que eu o li, estava lendo ao mesmo tempo outras grandes porcarias (como o Armada, livrinho de Ernest Cline que eu já resenhei aqui), então o São Bernardo ficou parecendo o melhor livro do universo em comparação. Mas é fato que ele não me empolgou muito, não é um livro nem de longe ruim mas prometia muito mais. Lembro que Vidas Secas me impressionou muito mais, talvez pelo retrato detalhado e triste que ele faz da pobreza.

Talvez o São Bernardo possa ser visto como o primo rico do Vidas Secas. O cenário é também rural, mas o cara aqui tem dinheiro e tem fazenda. O cara é mandão, comanda todos os seus trabalhadores, é opressivo, mas também é um tanto bonachão e mostra arrependimento de suas ações. É um livro também triste, mas por outros motivos. Aqui a tristeza é mais pessoal, menos social.

Acho que o livro merece talvez uma nota 4/5, não tenho coragem de dar um 3/5 para uma obra de Graciliano, um cara tão figurão aí da nossa literatura.

Nota final: 4/5

Então é isso, o livro merece um 4/5, não tenho culhões para me contrapor a toda a tradição literária e acadêmica que elevam o Graciliano a uma espécie de Deus da literatura nacional. Então respeitosamente eu dou uma nota um pouco maior do que aquilo que eu realmente achei. Talvez essa forma de dizer seja enganosa, porque na verdade eu gostei do livro, só não gostei tanto assim.

Ele tem aquela característica parecida com filmes tipo O Poderoso Chefão (The Godfather), que é aquela coisa do cara ser fodão e aí, por conta das decisões merda que ele faz (enquanto chefão), fica triste e reflexivo, ou então tudo começa a dar errado, etc. Uma espécie de drama envolvendo figuras de comando. Acho que esse livro se encaixa nisso.

É bem possível que a experiência de leitura seja diferente da minha e seja mais prazerosa a você. Ele tem uma característica cativante que realmente dá pra notar, ela só não me pegou tanto assim. Então é uma leitura recomendada, e você pode se gabar de ler um livro aí apreciado pela turminha entendedora de literatura.

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