Trem Noturno para Lisboa, de Pascal Mercier
Livro aí de umas quatrocentas e cacetadas páginas que começa promissor, mas rapidamente fica chato, mas chato...
(Atenção! Spoilers em todo o texto).
Bom, a premissa é legal, ainda que seja um tanto clichê. Cara de meia-idade com um empreguinho meia-boca numa universidade começa a questionar a sua vida e começa a ter atitudes aleatórias do nada. Começa a dar uma de louco, sai na rua do nada, toma chuva, vai em livrarias... pois é.
Não é um início tão ruim, na verdade a leitura começa bem e muito boa. Logo você fica preso na história do cara, pois é um daqueles clichezões que é muito fácil se identificar, mesmo que você não seja de meia-idade e mesmo que não seja sequer homem. Todo mundo consegue empatizar com um cara que quer dar uma guinada na vida, e tem algo de saboroso em isso ser feito de uma maneira meio louca e sem razão aparente. Dá vazão um pouco ao que queremos fazer nas nossas vidas, o tempo todo.
Até aí ok. A narrativa de Mercier é bem feita o suficiente - pelo menos nesse começo - pra você se encantar com as ruas charmosas de Berna, e mais pra frente, com as ruas de Lisboa, que é para onde o nosso protagonista viaja de trem (e à noite, não nos esqueçamos). O livro abre com uma cena interessante, que é um encontro com uma mulher numa ponte, que beija a testa dele na rua (sim, do nada), aí ele resgata ela de algo que poderia ser um suicídio (ela ia se tacar da tal ponte), e aí ele se encanta com o sotaque português dela, coisa e tal.
Então o livro tem essa sensação exótica, de um cara na fria Berna com seus nomes ríspidos em alemão, para a delicadeza, melodiosidade e exotismo, da fala em português. Tudo isso se liga com o fato de o cara (o protagonista) ser um professor de línguas antigas, fascinado por esse tipo de coisa. Gosta da filologia, do mistério da linguagem, essa coisa toda. Até aí, beleza. Tudo bem amarrado, ainda que "bem amarrado demais" (dá pra ver um pouco a mão do autor forçando a coisa toda, mas tá ok, até que funciona).
O problema é que, depois desse início intrigante, o livro não vai para lugar nenhum, e tudo se resume ao cara fazendo coisas aleatórias em Lisboa, só que dessa vez com um livrinho a tiracolo. E ele, toda hora, abre o livrinho chato (de um tal de Amadeu de Prado, que passa a ser o centro da narrativa), que basicamente se trata do tal Amadeu lamentando o seu passado e filosofando sobre coisas diversas.
Amadeu de Prado, um filosofeiro chato
E aí é que está o grande problema desse livro. É um livro sobre outro livro. O negócio é o protagonista (de nome Raymond Gregorius) lendo obcecadamente este livro e tentando reconstituir a vida do seu autor nas ruas de Lisboa. Parece bacana, assim dito, e até funciona em certa medida (se essa medida for, digamos, algo muito baixo), mas o fato é que não funciona muito bem. O resultado é chato, pretensioso, incoerente, e assim vai.
É um conceito meio estranho, isso de um livro dentro de um outro livro. De vez em quando, rola alguma coisa assim na literatura. É uma espécie de Inception dos livros, ou talvez poderia se dizer uma espécie de "latinha de pó Royal" literária, aquela coisa de você olhar a latinha, e descobrir que tem uma latinha dentro de outra latinha, e depois outra latinha... e assim ao infinito. Seria bacana, se o livro em questão (o livro dentro do livro) fosse muito bom (aí talvez pudéssemos ler o suposto livro diretamente, mas enfim), o problema é que esse não é muito o caso.
O livro do tal Amadeu de Prado, que o autor aqui do "Trem Noturno..." fica socando por sua goela abaixo o tempo todo, não é uma grande obra-prima literária. Ok, tem algumas passagens interessantes, e a filosofia ali descrita (sim, é um livro de filosofia) até que faz alguns questionamentos válidos e bem articulados. O problema é que são longos, muito longos. E sempre fica a sensação estranha de o livro estar dentro desse outro livro, que fica com a ação paralisada porque você fica lendo o livro, dentro desse livro. Estranho.
Pascal Mercier, pseudônimo de Peter Bieri, é realmente um professor de filosofia, e como toda gente dessa área, é ligado numa chatice, geralmente através de textos longos, altamente conceituais e obtusos. Ele não decepciona aqui. Os trechos do Amadeu (que o protagonista lê do nada, ao longo das mais diversas situações) são arrastados, cansativos, longos demais, e quase sempre em tom de melancolia e lamentação. O fato é que Amadeu era um grande de um chato, fica essa a impressão. E isso mata um dos conceitos do livro, que é o fascínio do Gregorius pela vida do Amadeu. Uma coisa não casa com a outra, pois o livro fala o tempo todo que Amadeu era um cara fascinante e intrigante, mas não é isso que notamos pelos fatos demonstrados (e, principalmente, pelo seu livrinho arrastado).
E aí o livro então passa a se resumir no seguinte: Gregorius anda pelas ruas de Lisboa, dá uma de louco, reflete um pouco sobre como a cidade é diferente da cidade dele, e blá blá blá; para num café, lê um trecho longo do Amadeu de Prado (e nós lemos junto com ele, de cortesia, pois o livro insere os trechos do livro na sua narrativa), ele paga a conta, vai embora, e fim. E aí isso se repete, de alguma maneira, mais a frente, de novo e de novo. O cara simplesmente tira o livro do nada e começa a lê-lo (em tom reverencial forçadíssimo, aliás), chega ao ponto de ele estar na presença de outras pessoas e pega o livro, e lê do nada. Então o livro fica chato muito rapidamente.
Toda essa leitura do Amadeu é entremeada pela perseguição que o protagonista faz às figuras que fizeram parte da vida dele (Amadeu lutou contra a ditadura de Salazar, nas décadas passadas, e tem todo um subplot sobre isso), então boa parte do livro é ele batendo na porta da irmã dele, do ex-amigo dele, etc etc, fazendo perguntas inconvenientes sobre a vida dele. E todos ficam lá, esperando por ele, e quase sempre o recebem de prontidão, do nada, como se todos vivessem apenas para receber um estrangeiro que está interessado na vida de um cara de outras décadas... não faz muito sentido e soa muito artificial. Os personagens não tem vida própria, eles servem apenas para avançar o roteiro e são como pedaços de papelão, só aguardando o protagonista chegar para continuar a história.
A mulher na ponte, que o autor joga no lixo
O livro tem toda a pinta de que estava sofrendo com um deadline apressado, porque fica claro como no final (depois de arrastar o livro por quase toda a sua extensão), o autor começa a correr com tudo, tentando dar um final digno para as coisas que ele bolou (que não são muitas e nem muito interessantes). Aí tem aquele final bem jogadão, e a coisa ficou tão mal feita, que ele simplesmente esqueceu de falar de novo da mulher da ponte (que era a cena inicial do livro, que causou toda a corrida dele para Lisboa), e que você fica o livro inteiro esperando o que ele vai fazer sobre isso (a propósito, ele carrega o número de telefone dela o tempo todo, mas nunca liga pra ela). Simplesmente o autor resolveu ignorar isso, na maior cara dura.
Esse foi um erro tão primário, e ficou tão estranho na narrativa, que quando a versão em filme foi lançada, o diretor simplesmente corrigiu esse erro e colocou lá um desenrolar para essa coisa da mulher da ponte. E aí o diretor, adaptando a história, fez um esquema que ela seria neta do Salazar, coisa e tal. Isso não tem no livro original, pois o autor achou por bem que não valia a pena se apegar a isso. Se era pra ser assim, por que então tem essa cena no início do livro? Ficou uma coisa muito sem sentido e inexplicável.
O livro não é de todo mal. A descrição feita de Lisboa é interessante o suficiente, até meio que você se sente andando pelas suas ruas e fica mais ou menos empolgado, com toda aquela sensação de "novidade" que o protagonista sente. Há um certo apelo nessa coisa do protagonista começar a fazer coisas do nada, resolvendo andar na rua apenas porque sim, visitar outra cidade, e entrar num universo estranho de introspecção, acompanhado de um livrinho misterioso. Isso meio que sustenta, de maneira ainda que bastante frágil, um pouco a narrativa do livro, e é o que mal consegue impulsioná-lo.
Só que o livro é tão mal pensado que, absolutamente do nada, ele volta para Berna, não faz absolutamente nada lá e... volta de novo para Lisboa, para viver as mesmas "aventuras" (que consistem em aporrinhar a família do Prado, com perguntas sobre a vida "fascinante" dele). E sempre com o livrinho do Prado na mão, que ele abre para pincelar passagens "brilhantes" (que levam longas e arrastadas páginas), aqui e ali. Isso, além de não fazer o menor sentido e de não ter a menor razão de ser, quebra um pouco da magia do livro, que é essa coisa de ele estar nessa cidade diferente, e a gente junto com ele, etc.
Não faz o menor sentido e não colabora em nada com o desenvolvimento do livro. A única coisa que isso faz é quebrar esse encantamento, que é ele estar nesse lugar quase "mágico" (a Lisboa da história), distante do seu cotidiano, que apela à imaginação e é uma espécie de território inexplorado, um local quase que de sonho para ele. Aliás, outro momento que o filme totalmente ignora, porque realmente não faz o menor sentido (no filme, ele só vai uma vez pra Lisboa e pronto). Quebra, também, toda a tensão da viagem inicial (o tal do "trem noturno para Lisboa"), pois ir e voltar de Berna é algo normal, como ir até a esquina, sem qualquer consequência.
A cena mais legal do livro, que é o Gregorius no meio dos ratos
Uma das cenas mais legais que eu achei no livro, e que (ainda bem) demora até que um tanto durante a narração (e que se repete em alguns outros momentos), é ele simplesmente pegando suas coisas e armando barraca numa escola abandonada e zoada. Aí ele fica lá, com toda a parafernália de camping, com lanterninha, lanchinho, no meio da bagunça, enquanto lê no escuro as cenas do livro que ele tanto ama. A cena tem algo de loucura e de aleatoriedade que eu achei bem bacana e considero um de seus momentos mais marcantes.
Toda o negócio do camping ele consegue com um amigo, que ele fez no trem para Lisboa, e que convenientemente é rico e dá morada para ele (absolutamente do nada), em certo momento do livro. Esse personagem, de nome Silveira, aparece no começo (na parte do trem), fica sem ser mencionado quase o livro todo, e aí retorna do nada e, inexplicavelmente, cede até um quarto da sua casa de rico pra ele. Mais uma cena que não faz o menor sentido. Então o livro sofre também com ações que não contém o mínimo de realismo, não são como pessoas normais reagiriam em uma situação normal. O cara mal deu oi para o outro, e aí é só passar a mão no telefone e pronto, já entra na casa do cara e até fica dormindo lá. Não convence.
Isso, infelizmente, costuma ser recorrente ao longo do livro. Todo mundo fala como se estivesse declamando um poema, pessoas estabelecem relações com outras pessoas apenas porque o autor do livro mandou, ou seja, não há a criação de um ambiente convincente e com as coisas acontecendo por alguma lógica ou de maneira a respeitar uma naturalidade. E nem precisaria disso (do Silveira ceder a casa dele), já que, como o livro mostra o tempo todo, Gregorius tem dinheiro à vontade (o que nunca é explicado também, já que ele é professor universitário), então poderia perfeitamente ficar sempre no hotel e comprar o que quisesse do camping, sem precisar recorrer a nada.
Fica a impressão de que Mercier quis criar um personagem que se interessasse pelo Gregorius (esse tal de Silveira), já que tudo no livro gira em torno da vida do Prado e o Gregorius em si fica um pouco de lado na história. Mas no final simplesmente ficou com preguiça de desenvolvê-lo, aí deu pra ele uma função secundária e ficou por isso mesmo. Pois é, o livro todo passa essa sensação de desleixo, que é impossível ignorar.
No final, fica a sensação de que não vale a pena. Afinal, a única coisa que o Gregorius faz é andar por aí com o livro na mão, e de vez em quando abre o livro, lê, e pronto. No livro, Amadeu (que só falta ser tratado como Jesus Cristo pelos personagens, uma reverência incoerente e que nunca é justificada, apenas forçada no leitor) fala sobre a vida, a morte, o caos, a existência, e tudo o que está no meio. Reconheço que algumas passagens até são interessantes, mas no geral são apenas cansativas, bastante pretensiosas e pedantes. E o livro é generoso em nos oferecer essas longas passagens, retiradas do "sublivro" do Prado (o livro dentro do livro).
O livro joga você pra baixo o tempo todo. É como se você tomasse uma dose de lexotan o tempo todo. Você está lendo, aí beleza, algo acontece, e aí do nada: Greg pega o livrinho do Prado, lê umas oito páginas disso (e os trechos são socados no meio da história), e pronto. Aí então você, quando começa a minimamente se empolgar com alguma coisa (o que já é raro), vem o tal do livrinho (o sublivro do Prado) e te aplica uma dose cavalar de soníferos. Chega até a dar medo, você fica lendo e torcendo, dizendo a si mesmo, "não pega de novo o livro do Prado, por favor...". Então o livro tem até uma certa tensão, se você pensar bem, de ficar com medo do tal livrinho reaparecer de novo, com suas longuíssimas e pedantes passagens.
O filme do livro, que é melhor que o livro
Sempre vale a pena ver um filme de um livro ruim, pois é provável que o filme melhore o livro (não pela qualidade do filme, mas mais pela ruindade do livro mesmo). É o caso aqui. O filme não é nenhum "Cidadão Kane". Mas é bem passável e bastante superior ao livro. Tem o mérito de ter escalado bons atores, de usar boas locações, e de o cara saber uma coisinha ou outra sobre filmagem. Lisboa fica bem vistosa no filme, as locações saltam aos olhos, e as interpretações, se não são sempre boas, não comprometem.
O engraçado é que os atores escolhidos são meio que do mesmo jeito que eu imaginava quando li o livro. A dentista que o cara dá em cima ficou especialmente bem parecida com o que eu imaginei, que é uma coroa meio gordinha e razoavelmente atraente. Outros atores também ficaram muito bons. Destaque para um dos amigos de Prado, que é feito por aquele ator que interpretou Hitler no filme "A Queda" (aquele filme com os memes do Hitler), o Bruno Ganz. É um ator com certo carisma e que tem um certo peso na tela, digamos.
Enfim, não sei o que alguém acharia do filme só por si, pois eu só vi depois de ler o livro. Pelo que eu vi por aí, muita gente achou o filme chatão, mas como eu li o livro chatão antes, aí o filme pareceu até que legal.
Não acontece nada no livro e termina sem acontecer nada
Pois é, está aí o mega spoiler do livro, que talvez possa mais ser definido como um "não spoiler", pois é um spoiler sobre coisa alguma. Não acontece quase nada ao longo do livro. Ele só fica rodando pra lá e pra cá, entrevista pessoas que fizeram parte da vida do Amadeu (tentando montar um quebra-cabeça sobre a vida dele na cabeça), aí abre o livro, lê o livro (geralmente as partes piores são essas), e assim vai. Lisboa é o cenário para essa fascinante "aventura", e tudo fica meio nisso.
Não tem problema um livro ser sobre o nada. Há ótimos livros e coisas sobre o nada, e dá pra fazer algo muito bom nessa linha. Mas não é muito o caso aqui. Não é um livro de todo ruim, mas o fato é que o quebra-cabeças montado (tentando desvendar quem foi esse tal de Amadeu), a busca interior do protagonista, tudo isso, não empolga muito e não gera muito interesse. Então fica uma leitura bem "meia bomba", ela até flui, você vai indo, mas nunca decola, nunca empolga de verdade.
O interessante é que esse foi um livro best seller, ou seja, muita gente não achou o que eu achei e gostou do negócio. Ou, pelo menos, comprou o livro (se leu, já é outra história). Ele tem toda a pinta de ser um best seller mesmo: extensão desnecessária (padrãozinho quatrocentas/quinhentas páginas, pra ficar bem na estante), tema de filosofia de botequim (filosofia para dummies), tema "inspirador", essa coisa toda. Os capítulos são curtos, e sempre tem esse ar "engrandecedor" pessoal, como se tudo fosse uma grande reflexão poética e singela sobre a vida, ou seja, é livrinho para ler com a canequinha de café do lado e tirar fotinho comfy para o Instagram, se sentindo abraçado pelo ar de reflexão que a história tenta forçar.
Não sendo injusto, algumas passagens do Prado são realmente interessantes e trabalham bons temas da filosofia, de uma maneira singela o suficiente para que o leitor consiga se interessar. Não é algo tão ruim ou trash como pode parecer aqui, mas também não é a "Crítica da Razão Pura", de Kant. É uma reflexãozinha do Prado aí sobre a sua vida, tentando dar uma dignidade filosófica ao que pensa. Funciona até certa medida, mas é mais o Mercier aí (pseudônimo do Bieri, que é professor de filosofia) inserindo suas frustrações filosóficas no meio da narrativa. Deve ser empolgante para ele, mas nem todos são ligados na chatice filosófica para gostar. Faltou, talvez, pesar menos a mão.
Nota para o livro: 3/5
Nota mais do que justa, não é um livro ruim, você vai lendo, fica meio chato com o tempo, mas tem as suas qualidades. O que eu mais gostei nele é o ar de loucura que passa por todo o livro. O cara começa a fazer umas coisas meio aleatórias do nada (tudo bem que não é algo extremo, ele não passa a usar drogas e a viver doidamente, ele mais é anda por aí e lê um livro), e isso passa uma certa sensação para o leitor, de uma certa melancolia e de vontade de fazer o mesmo. As cenas que reforçam essa loucura (como ele se abrigar numa escola abandonada em meio a ratos e destroços) são as melhores, em minha opinião.
Muita gente amou de horrores esse livro, e até dá pra entender, pois é uma espécie de introdução à filosofia para gente que não lê filosofia. Uma espécie de "O Mundo de Sofia" para adultos, só que sem a história da filosofia e com base em reflexões e pontos de vista pessoais. Se visto assim, funciona, e pode até agradar, mas os defeitos e, principalmente, o tamanho desnecessário (e algumas cenas completamente sem sentido e mal trabalhadas, personagens que são "deletados" como a mulher da ponte etc), jogam o livro bastante para a baixo. Tivesse metade do tamanho, só umas duzentas páginas, seria bem melhor.
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