Brasil, disco da banda Ratos de Porão
E vamos aqui falar desse disco lançado pela banda do João Gordo em 1989. Considero esse tipo de som bastante desafiador, pois simplesmente é difícil entender alguma coisa ou o objetivo quando tudo o que vem aos ouvidos é um barulho ensurdecedor e caótico. É desafiante, então, tentar filtrar as emoções a partir disso, e o que vem é basicamente desilusão, ódio e um "passeio" (se é que se pode chamar assim) pelo lado obscuro do ser humano. E é isso que se tenta aqui.
Pregos em um liquidificador, e algumas guitarras por cima
Já é meio que clichê designar este som como pregos liquidificados, mas é bem isso que soa mesmo. Parece que colocaram um monte deles lá e ligaram no último volume. Se é isso que você quer, vai ter um som perfeito dentro dessa proposta. Mesmo assim, há muita musicalidade no som, bem como intensidade. Basta se propor a entrar no clima e não ficar reclamando do barulho (seja para si ou para os outros).
É admirável a competência dessa banda, que nesse estilo de som alto e raivoso, provavelmente é uma das melhores. Tudo é tocado com impressionante velocidade, os timbres da guitarra são graves e extremamente arranhados, e tudo soa como um grande turbilhão, como se você viajasse para uma dimensão sombria e tudo ficasse batendo na lata enquanto isso.
Bem, devo admitir que não consegui o envolvimento emocional desejado com o som, mas ele passa um pouco essa impressão, então acho que é um disco muito que depende do seu humor. É o som perfeito para os momentos em que você está puto e precisa acordar um pouco pra vida, porque o som é isso mesmo, porrada pura, pra ver se (no tranco) desperta algum sentimento (mesmo que seja negativo). Dizem que a arte também tem essa função, né, de chocar ou provocar um movimento, então isso aqui realmente é bastante artístico.
Não espere harmonias bonitinhas, som melodioso, nada disso, o que vale aqui é barulho, intensidade, velocidade, ódio, e as letras também com muita crítica social e pessimismo. O disco é desilusão pura, seja no seu som, seja nas suas letras críticas.
As músicas parecem todas meio iguais
Tirando uma ou outra música, é um tipo de som em que todas as músicas parecem muito iguais, então é difícil dizer qual é qual. É como se você tivesse ouvindo a mesma música o disco todo, pois é como se ele apagasse as pistas de si próprio, só sobrando o caos e a bagunça. Não acho que isso seja necessariamente ruim, pois é uma das consequências desse estilo optado. Se o som amaciasse demais e ficasse muito óbvio e certinho, iria cair fora do que se pretende enquanto estilo.
Mas no fundo é isso, as músicas são todas meio iguais mesmo, às vezes dá uma variada aqui e ali, mas não sai muito disso. É algo coerente com o estilo, no entanto, então onde se ganha uma coisa, perde-se outra. É um disco que, de fato, não quer facilitar a vida para você, quer bagunçar os sentidos dos revoltosos ouvintes (e, provavelmente, dar vazão a certas insatisfações juvenis), ou então desafiar auditivamente o ouvinte mais convencional. Em todo o caso, é uma proposta muito válida.
E aí então fica lá, aquele som forte, pof pof pof pof, e aí piruliru piruliru, umas guitarras por cima, e a voz do João Gordo rasgando por cima, e é isso aí. Creio que, ao vivo, o negócio deva ser uma loucura, aqui no disco fica algo mais morno e depende mais do seu humor mesmo.
A curiosidade sobre as vertentes pesadas do metal
Não sei se esse som poderia ser chamado de thrash metal, ou então de death metal, ou sei lá o quê. Se for pra ficar lendo um compêndio sobre isso, prefiro nem ouvir o som, pois o meu objetivo é ter contato direto com o disco e não ficar rasgando o verbo sobre eles e falando abobrinha (se bem que é isso o que faço aqui, mas enfim). Prefiro ser honesto com o que eu ouço e tentar passar uma impressão minha mesmo, que seja coerente com isso. Não vou pagar de entendedor sobre uma coisa que eu não sou, ainda que eu goste do som às vezes e consiga apreciar.
Nunca fui um grande ouvinte desse tipo de som, somente de vez em quando arriscando um Sepultura ou um Metallica, bandas bem padrão e já conhecidas neste estilo. Já tive minha dose de shows pesados na vida, e conheço a bagunça, violência e energia desses públicos, que ficam se digladiando enquanto ouvem o som forte, rápido e intenso. Mas nunca fui diretamente dessa turma, sempre foi uma espécie de algo mais ocasional e uma referência distante, e pouco entendo sobre as quarenta mil subdivisões que este gênero tem.
Mas aí chega um momento das nossas vidas chatas em que a gente quer rever (ou ver pela primeira vez) o que passou pela nossa vida (e que, por um motivo ou outro, não teve tanto impacto), e acho que daí surge o meu desejo de pesquisar bandas desse gênero. É um som que sai bastante do padrão e provoca emoções muito diferentes daquelas da maioria das bandas, então vale tentar buscar isso. Às vezes você fica meio blasé, ouvindo a porradaria, outras vezes entra no clima, e aí neste último caso, quanto a sintonia acontece, o negócio é muito bom.
Não sei se nessa audição este efeito chegou a acontecer, mas enfim, mesmo assim é um disco muito intenso e perfeito ao que se propõe. Uma banda competente no estilo dado e que, infelizmente, não é tão valorizada aqui no Brasil. Um disco que vale a pena se você está em busca de um som novo e muito diferente (caso, é claro, não esteja já acostumado com isso).
Nota para o disco: 5/5
Vou meter logo a nota máxima nisso aqui, porque apesar das críticas, é um disco excelente para o som proposto. A peteca dele não cai nunca, é barulho o tempo todo, guitarras pesadas e bateria ritmada no máximo da capacidade humana de mexer os braços, e tudo isso (de uma forma muito estranha) fazendo algum sentido. Mas é um som difícil, nem sempre é possível entender muito bem o que está acontecendo e, por isso mesmo, muito desafiante.
Certamente o ouvirei mais vezes, para formar uma memória sobre o som, e me acostumar mais com ele, talvez entendendo mais o que isso tudo quer dizer. Ou simplesmente me perder no som barulhento, feio, caótico, que tenta nos levar para os lados mais sombrios e feios da existência humana. Este é um aspecto que não pode ser ignorado. Afinal, nem tudo na vida é somente bonitinho ou harmonioso, é importante que exista uma música que consiga também expressar isso.
PS: Depois de redigir a resenha, pude dar uma olhada nas letras e elas são muito boas. Críticas, contundentes, comentam temas da atualidade (a atualidade da época, né), sempre muito interessantes. Como praticamente não dá para entender os vocais guturais do João, vale a pena dar uma olhada à parte.
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