Horizon Chase Turbo, para diversas plataformas

Vamos lá falar desse joguinho que se diz inspirado no clássico Top Gear, para o Super Nintendo, da época da idade da pedra. É um jogo de corrida sem grandes pretensões realistas (aliás, nenhuma pretensão realista), fortemente inspirado no jogo mais antigo (até demais), com cores fortes e cenários vibrantes. Então vamos lá analisar essa bagaça, sem mais grandes delongas.

Joguinho de corrida bem "marromeno", que tenta beber da sua fonte original

Aí é que está, pra mim, o maior defeito desse jogo. Ele fica lá o tempo todo esfregando na sua cara: "veja só, eu sou um remake do Top Gear do Super Nintendo! Ajoelhem-se, pagãos!", ou coisa do tipo. Isso é bastante desnecessário, já que o jogo pode perfeitamente pagar tributos a um jogo mais antigo, sem precisar comprometer o seu gameplay com um estilo já um tanto ultrapassado e que não funciona muito bem para as plataformas mais novas. Se fosse um remake direto do outro jogo (só dando uma mão de tinta nele), até que seria aceitável, mas aqui temos um outro jogo completamente diferente e isso não era preciso.

E por que eu menciono isso? Porque os defeitos do jogo parecem vir, principalmente, dessa necessidade constante de idolatria em relação ao jogo original. E isso, ao meu modo de ver, é uma grande incompreensão por parte dos desenvolvedores (a gaúcha Aquiris - sim, é um jogo brasileiro). O jogo original (o Top Gear) era irreal, mas isso se devia às limitações da época, que bem ou mal se traduziam num gameplay gostoso de jogar e condizente com a época. Mas os carrinhos eram todos com uma aparência "metálica", todos pareciam ter um peso legal, enfim, a perspectiva geral do jogo era de algo que tentava passar uma impressão realista.

Aqui, isso foi jogado completamente pela janela, para o bem e para o mal. O bem é que o visual do jogo é maravilhoso. Isso sim, é algo para ser elogiado sem medo de exagerar. O jogo é bonito pra cacete. A escolha dos cenários, das cores, enfim, tudo o que graficamente foi feito, é extremamente feliz. Ele tem um visual arcade dos anos 90 e traduz muito bem o espírito daquela época. É tudo bem colorido e vibrante, coisa e tal. Só que, pelo lado do mal, essa opção de querer tanto ser retrô preservou uma jogabilidade falha e algo desagradável.

Os carrinhos não tem peso e parecem caixotes vazios

Isso é algo extremamente frustrante. Parece que você tá dirigindo uma caixa de tetrapak, que você esqueceu de colocar no seu lixo reciclável. E todos os carros tem essa sensação desagradável. A direção de som também reforça isso, colocando sons "ocos" no carro, completando essa sensação de "caixinha vazia". É como se você tivesse não dirigindo um arcade dos anos 90 (em toda a sua glória), mas sim brincando com um carrinho de brinquedo do seriado "Chaves", como se fosse uma caixa de sapato vazia puxada por uma cordinha. Uma coisa não condiz com a outra.

Quando eu vejo um visual desse tipo, eu quero remeter de volta aos anos 90 (aliás, já falei mais "anos 90" aqui do que qualquer outra coisa, inclusive agora de novo), com aquela sensação "californiana", de praias e cenários urbanos, enfim, você sabe como é a "vibe" daquela época. Uma vibe toda especial, que nos leva de volta a uma época mágica da adolescência. É uma sensação que é muito bem traduzida por jogos como Daytona USA, que tem tudo a ver com o espírito dos jogos de corrida da época. Aqui, apesar do visual ser exuberante, essa sensação não consegue ser passada no "controle", ou seja, você não sente o carro assim!

O carro simplesmente não tem peso e desliza pela pista como se fosse um objeto irreal. É mais ou menos como a sensação de mover o ponteiro do mouse pela tela, aquela sensação etérea, de que aquilo é um objeto totalmente sem peso e irreal, mas que funciona no caso de algo funcional como o mouse. Para um jogo, eu quero um objeto real, eu quero peso, eu quero a sensação de que é algo metálico e maciço, enfim, eu quero que seja algo que pareça factível e tenha uma sensação mais ou menos real pela tela. Isso aqui não consegue ser passado.

Veja bem que não estou falando de uma proposta de jogo que seja realista de maneira exagerada, como uma simulação ou coisa do tipo. Não é isso. Quando o Mario anda pela tela, ele tem peso, ele desliza, ele tem inércia, essas coisas, ou seja, ele passa a sensação tensa de ser um objeto real pela tela, mesmo que ele não seja uma simulação de ser humano. Aqui deveria ter sido feito o mesmo, ou pelo menos buscado algo desse jeito. Parece que os desenvolvedores não se preocuparam o mínimo com isso. É uma pena, pois é um jogo com imenso potencial e poderia ser um dos melhores jogos de corrida retrô da atualidade (um nicho aí que tem crescido ultimamente).

Isso é ainda mais crítico quando um dos atrativos do jogo são suas inúmeras opções de carro, que vão sendo desbloqueadas ao longo do jogo. Os carros são divertidos, tem nomes bacanas e visual idem, mas é isso, todos parecem o mesmo caixote vazio. Deveria então se chamar, este jogo, o "Tetrapak Chase Turbo", porque é bem isso, você dirige caixinhas e não carro!

Não é algo que chega a estragar o jogo (bem, na verdade chega), ele dá pra jogar e é até divertido, mas não traz mais nada, não dá empolgação e você esquece o jogo tão logo o desligou da tela. 

O jogo tem um milhão de coisas pra desbloquear e algumas dezenas de modos de jogo

Ok, a afirmação acima é exagerada. Na verdade, deve ter somente uns cinco modos de jogo diferentes (o que já é bastante) e algumas dezenas de carros. Este é um aspecto legal, pois ele meio que remunera você pelas suas conquistas no game. Isso dá alguma empolgação de jogar, para tentar se sair melhor e desbloquear o conteúdo. Neste ponto, o jogo é muito bem sucedido.

Outra coisa legal é a apresentação do jogo, muito bem feita e bonita. Eu só não gosto do som de "chimbal fechado" que faz toda vez que você se move por um menu. É um som bem desagradável, um chiadinho que parece que eu tô mexendo num negócio quebrado. Quando você escolhe um dos menus, faz um som de lata que também é bem ruim, passando a mesma sensação de algo precário e quebrado. O jogo, no fundo, é isso, uma coisa oca, mas que por outro lado é muito bonito e bem apresentado.

As pistas são muito bonitas, mas eu não sei se são exatamente interessantes. Todas são meio iguais, o jogo é tão pouco realista que correr por uma pista é como correr por todas, tirando o fato de que umas são mais largas e outras são mais estreitas. Nas pistas estreitas, é uma tortura, o jogo coloca uns trinta carros na corrida e você simplesmente não tem como passar por eles, porque tapam toda a passagem e você fica lá batendo neles, com aquele som de "eco" que o jogo adora. Caixinha batendo em outras caixinhas...

Os cenários, no entanto, são lindíssimos, a direção de arte do jogo é simplesmente supimpa. E isso aumenta a agonia do jogo, pois você vê lá o jogo gritando para ser bom, mas ele não consegue, o design em si não responde e, principalmente, a sensação de mover o carrinho, que não é muito agradável. Por mais que seja um jogo arcade, eu quero sentir o motor, a velocidade, o mínimo que seja, não somente mover um modelo oco feito em computador. 

Mamãe, eu quero ser o Enduro (mas não consigo)

Este jogo tem um síndrome de Enduro que é um troço terrível. Mas, ao contrário do jogo clássico para o Atari, aqui seria como um Enduro mal feito, sem aquele equilíbrio tão prazeroso do jogo original. Cada corrida começa com um monte de adversários, e a sensação de iniciar a corrida é então a sensação de desviar de vários carros, ou seja, muito parecido com aquele outro jogo para o Atari. Só que é algo muito incidental, o jogo por outro lado quer ser mesmo é o Top Gear, então ele não é equilibrado para ser jogado como um Enduro. Uma coisa não casa com a outra.

O efeito disso é que você vai passar pelos carrinhos, mas vai bater em praticamente todos eles, e mesmo que você consiga não bater, isso é feito a custo de muita chatice, pois as suas brecagens são completamente irreais e o carro não passa nenhuma sensação próxima do realismo. Fica um gameplay frustrante e sem graça, seja ganhando ou seja perdendo. 

Para os fãs do Top Gear, provavelmente o jogo é um prato cheio, já que é quase que uma cópia fiel da jogabilidade original. Só que uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa. O Top Gear funcionava no Super Nintendo, era um outro espírito, uma outra época, e muita coisa que era aceitável lá não é aceitável aqui. O jogo tinha que ter sido melhor adaptado. Em alguns casos, manter o gameplay fiel funciona bem (como aconteceu em, por exemplo, DuckTales, que recebeu um remake bastante fidedigno ao original), mas num jogo de corrida isso é muito problemático, pois é um gênero que evolui muito, e muito rápido. 

Um jogo de plataformas antigo ainda tem um gameplay muito sólido e consistente, e pode ser mantido sem maiores alterações. Mas um jogo de corrida pede uma mudança mais pronunciada, porque é um gênero que tem muito a ver com o realismo (em graus diferentes) com que o carro é sentido no controle. Mesmo que o jogo seja o mais fantasioso possível, você quer a sensação mínima de que aquilo tem um motor, é pesado em alguma medida e é um objeto real. É chato bater nessa tecla, mas isso chega quase ao ponto de estragar o jogo. Não rola.

A trilha sonora excelente, feita pelo carinha do Top Gear

Está aí um dos pontos altos do jogo (diria até "altíssimos"), que é a trilha sonora feita pelo cara lá que compôs as músicas do Top Gear original (um sujeito chamado Barry Leitch). Realmente, é uma trilha sonora excepcional, contém a ideia de tensão e de modernidade (algo distópica) que um jogo do tipo realmente pede. Dá um peso para o jogo e uma graça muito diferente para ele. Se a jogabilidade meio mal feita compromete, o Barry aqui quase que dá uma salvada, só na base da trilha sonora.

O som realmente foge do padrão para a maioria dos games, remetendo a uma época de grandes trilhas sonoras para jogos do tipo. Nos anos 80 e 90, havia algumas trilhas realmente excepcionais que saíam da obviedade de só acompanhar a ação do jogo de maneira linear (ou seja, joguinho feliz, musiquinha feliz, etc). Aqui, a trilha brilha por conta própria, e ela mesma traz outros significados para o jogo, não só casando com ele de maneira óbvia. É uma trilha tensa, bonita, evocativa e cheia de nuances. Vale bem a pena.

É um som que lembra uma coisa meio anos 70, como se fossem algumas séries antigas de bandidos, ou coisa do tipo. Bem, eu nem sei o que eu estou falando, dificilmente conheço alguma série antiga dos anos 70, mas o som dá a impressão de que, se eu conhecesse, seria este o som. É como se fosse um faroeste anos 70, num carrão antigo e quadrado, e alguma coisa de alienígena e high tech nele (um faroeste entre alienígenas, talvez). Cof cof, bem, disfarça, apenas sou eu tentando trazer imagens que tenham a ver com o climão dessa trilha, da qual eu gosto muito (pode ignorar essa parte sem problemas).

Enfim, mas qual o veredicto?

Bom, o negócio é que é um jogo bonito, bem apresentado, com uma trilha sonora digna de nota, mas que no final parece decepcionar. Poderia-se dizer que é um jogo broxante, ou melhor, que ele até excita num dado momento, mas que depois vai afundando e você fica bastante decepcionado, esperando que fosse algo melhor. Mesmo assim, é um jogo até que agradável, dá pra encarar numa boa, e ele realmente é muito bonito e simples na proposta.

Se a exigência não é muito grande, e o que se quer é apenas um joguinho de corrida bonitinho e não muito complicado, provavelmente o jogo vai lhe agradar. Mas se o que se espera é um jogo um pouco melhor, com um gameplay mais viciante e empolgante, não acho que isso aconteça aqui.

Fiquei na dúvida qual nota mandaria neste caso, pois apesar de todas as críticas, ele não é nem de longe um jogo ruim. É bom, mas não é muito bom, e tem fases na vida em que a gente só quer o muito bom, então talvez seja este o caso.

Nota final: 3/5

Então tá aí, até pensei em mandar um 4/5, porque a música muito boa dele e os gráficos lindosísticos quase que dão uma salvada nele (e meio que salvam, se você pensar bem), o jogo em si é chocho mas você fica lá correndo com a música top no fundo, e os cenários bonitos, então a coisa vai fluindo. As variações nos modos de jogo (com torneio, campanha, etc), adicionam algum interesse, mas no fundo as corridas são tudo meio iguais, e os carros também tudo iguais (ainda que visualmente diferentes).

Eu sei que nos "stats" dos carros ele diz que é tudo diferente, que um acelera mais e outro menos, etc e tal, mas o fato é que todos "sentem" iguais, todos são o caixote vazio da embalagem de tetrapak. Não é o que esperamos de um jogo do tipo.

Ou seja, um jogo que quer ser um Top Gear (até em exagero), que flerta com o Enduro, e até bebe um pouco do OutRun, mas que no fundo não é nada disso, é um jogo bonito, bem apresentado, com trilha sonora excepcional, mas com gameplay broxante. A nota final é mais do que justa. Méritos ao estúdio brasileiro que fez um jogo bem decente, mas poderia ter sido bem melhor.

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