O Silêncio dos Inocentes, filme de 1991
Sempre ouvi falar desse filme, sempre vi em locadoras e diversos lugares desde 1990 e lá vai bolinha, mas por algum acaso nunca cheguei a ver. Tem a Jodie Foster, tem o Anthony Hopkins, e eu sempre soube que tinha a ver com um canibal (fatos que fazem parte da cultura pop), mas não sei por quê, nunca vi mesmo. Enfim, chegou aí a oportunidade, e agora vou compartilhar algumas impressões fresquinhas sobre o filme (na verdade, estou escrevendo com os créditos rolando e a musiquinha final tocando, então mais fresco que isso, impossível).
Filme meio confuso, mas muito bom
Pois bem, não consigo escrever sobre alguma coisa sem usar spoilers, então já está aí o aviso, o texto terá revelações sobre o enredo e toda essa coisa.
Então, aí que o filme fala sobre alguém que mata o outro, o outro que mata o um, enfim, o filme tem uma dimensão policial aí de investigação, e achei que essa parte ficou meio confusa. Não consegui entender direito como que descobriram quem matou quem, e como eu não gosto de ficar pausando os filmes para entender algo melhor (prefiro manter o ritmo intacto), então deixei passar batido.
A Jodie Foster, que é uma atriz com esse carisma todo especial de ser lindíssima e, ao mesmo tempo, ter esse ar de dignidade e de fodice que só ela tem (sempre com aquele olhar inteligente e superior, muito próprio dela), descobre quem é o serial killer de uma maneira bastante engenhosa, mas foi tudo muito rápido na tela que não deu pra entender direito como ela saca tudo isso. Talvez eu seja um pouco burro, ou apenas desatento, mas não sei. Se eu sou, então boa parte das pessoas também deve ser, e isso talvez seja um dos defeitos do filme.
Mas mesmo assim, é um filme muito bom. O ponto dele não é tanto essa investigação, mas as coisas que vão acontecendo no meio. É quase que um filme de terror às vezes. Em alguns momentos, parece até que você está naquelas montanhas-russas que passam dentro de cenários que dão medo, como naqueles parques de diversões lá. Mas isso ficou muito bem feito e produz o efeito desejado. O filme tem um ar bizarro bem interessante, bem fotografado.
Tem a metáfora das borboletas, que simbolizam a transformação, tem morte, e tudo misturado. Isso deu um ar bacana pro filme.
O canibal, que é o personagem principal, é sinistramente interpretado pelo Hopkins, a câmera dá closes bem legais nele e também na Jodie Foster, e o filme dá esse ar bastante intimista aí em algumas cenas.
O canibal ajuda a mocinha a desvendar crimes
E é isso aí, de alguma maneira (algo confusa), os dois vão trocando ideia ao longo do filme, e aí ele dá dicas para ela (que é uma policial novata), sobre como descobrir quem é o assassino. As dicas são todas cifradas, mas como o mundo é burro e ela é inteligente (e muito bonita, aliás), então só ela saca tudo, dando atenção para o canibal doidão, enquanto todos somente desprezam ele. Nessa base, ela descobre quem é o assassino, vai à casa dele, salva o dia, e fica tudo certo (não sem antes aconteceram algumas cenas bem legais, é claro).
A história em si é bem bizarra, trata-se de um travesti que quer costurar uma pele pra criar um vestido, ou alguma coisa mais ou menos assim. Aí ele mata umas mulheres meio gordinhas, pra conseguir as peles e ir fazendo o vestido. Essa premissa é realmente bastante chocante, e dá um gás para o filme. Se fosse hoje, provavelmente teria alguns reclamando de homofobia, etc e tal, mas como estamos em 1991, ninguém liga (e de fato, não acho que o filme seja homofóbico em algum momento). Inclusive há um subtexto sobre assédio sexual (em relação à protagonista), que é algo bastante presente, então o filme tem também sua dose de crítica.
Trata-se de um filme intenso, com boas atuações dos protagonistas, alguns personagens secundários interessantes, um estilo de filmagem bastante sóbrio. A câmera às vezes foca em objetos comuns e isso dá um ar sinistro e meio assustador o tempo todo (como se criasse um "suspense", por focar nesses objetos sem significado). E, ao mesmo tempo, esses objetos também adicionam uma outra camada de significado, sem que isso fique muito claro (é difícil estabelecer relações, mas adiciona um certo enigma ao filme). É uma opção muito bem pensada do diretor, ou da equipe de filmagem, que seja.
Bom, a sensação de assistir esse filme é de levar uma porrada, fica um "retrogosto" meio amargo após assistir ele, então eu diria que é algo que vale bem a pena.
Os métodos doidos do Dr. Lecter
Uma das coisas loucas do filme, e ao mesmo tempo lúdicas, é como o doutor (que aqui é retratado como um gênio imbatível) consegue se sair das situações. Essas partes são muito bem feitas e bem arranjadas. Primeiro ele consegue desviar uma caneta, para aí fazer lá um treco que tira as algemas, e depois disso, mata geral e escapa. Ele se disfarça de policial para aparecer no meio de uma ambulância e matar todo mundo. Apesar da incredulidade que a cena gera, não se trata aqui de um filme realista, então está tudo certo, o que importa é transmitir a ideia de que o Hannibal é essa besta-fera que não pode ser detida, e muito, muito violenta.
Então o personagem principal tem esse ar vil e genial, ele troca diálogos sacanas com os outros, tentando penetrar em seus inconscientes, e ao mesmo tempo tem uma certa aparência de pessoa educada, então meio que todos respeitam e temem ele o tempo todo. Ele é esse personagem duplo, triplo, que é visto como um monstro, mas também como algo genial. Enquanto personagem, e um filme focado em seu desenvolvimento, eu acho que foi bastante bem feito.
O filme lá pelo meio é um pouco sonolento, mas depois decola no final, com suas cenas sanguinolentas. Trata-se, então, de um filme um pouco irregular na maneira como trabalha o humor do espectador, mas nunca chega a ser muito chato. O carisma e penetração da personagem Starling (feita pela Jodie Foster) seguram a bronca. Aliás, trata-se de uma atriz extremamente apaixonante, é claro.
Filme não disponível nos serviços de streaming
É impressionante como os serviços de streaming hoje em dia tem menos filmes que certas locadoras vagabundas de antigamente tinham. Tenho a impressão de que uma locadora de bairro qualquer antes tinha mais clássicos do que os serviços de hoje. Então tive, é claro, que recorrer a métodos alternativos para a sua visualização (que consiste na aquisição do filme original, é claro, e depois o download de uma cópia de backup via torrent). Tudo feito de maneira correta, evidentemente.
Bom, para não mentir, o filme estava disponível no Prime Video, mas como não basta só cobrar uma mensalidade pra gente conseguir ver, eles às vezes cobram também pelo aluguel do filme, o que é algo que me parece absurdo. Se eu já pago mensalidade, já não tinha que ter acesso? Que gasto eles têm em simplesmente colocar o filme num servidor e disponibilizar o streaming? Algo muito próximo do zero, eu diria. Mas enfim. Então foi muito mais fácil encomendar o filme e baixar o backup, que foi o método feito.
Mas enfim, está aí paga a minha dívida em relação a este clássico filme, que até agora não tinha adentrado as minhas retinas. Então tá aí, gostei bastante, Jodie Foster é foda, bem como o canibal louco lá, e trata-se de um filme muito bom.
Pelo seu caráter confuso, não ganha a nota máxima, e diria que, muito provavelmente, ele foi adaptado de um livro (adaptações desse tipo costumam ser confusas, pois os roteiristas precisam transmitir uma tonelada de informações em poucas cenas), mas não chega a ser tão confuso assim, e dá pra encarar.
A gente só sabe, no final, que aconteceu uma coisa a partir de outra coisa, e dá pra fingir que a conexão existe (e que você entendeu), e se empolgar com isso, então o filme vai fluindo e não é algo que o prejudica tanto.
A opção de não pausar os filmes e manter o ritmo
Pois é, como recentemente fui criticado pela mania (que eu tinha e agora não tenho mais) de ficar pausando os filmes para entender cenas, acompanhar detalhes de interpretação e toda essa coisa, resolvi experimentar ver filmes sem pará-los nunca, mesmo que eu não tenha entendido algo. Assim, privilegiei a experiência no geral feita de uma tacada só, até porque não quero ficar umas cinco horas para ver um filme de duas (praticidade, também). E, como pretendo expandir a minha visão sobre filmes (vendo-os com mais frequência), tenho que ser mais rápido e não ficar enrolando demais, então esse filme foi visto tudo de uma vez só.
E devo dizer que foi bom, pois se o roteiro ficou confuso em alguns momentos (e ficou bastante), pelo menos as sensações foram melhores, o filme se tornou mais envolvente, e consegui entrar mais no universo dele. E isso acaba compensando, se eu perco em clareza, ganho em sensações e envolvimento, o que é muito mais importante em relação a um filme (eu acho). Então eu fiquei com a sensação de ter visto o filme no cinema mesmo, com a intenção original do diretor, que não foi aqui deturpada por interrupções aleatórias. Então eu acho que valeu.
Sei que essa série de filmes aí do Hannibal tem sequências, acho que tem até uma série aí, enfim, é um personagem que é bastante cativante para muita gente. Aparentemente, canibais inteligentões agradam bastante. Talvez um dia eu vá atrás dessas sequências.
Aliás, quero evitar também de ficar lendo muito sobre filmes, ou seja, as críticas, o que os outros acham, etc. Chega uma época da nossa vida que cansa ver um monte de gente (geralmente muito mais sabidas que você), dando pitacos sobre como você deve se sentir sobre algo e o que deve pensar sobre algo. Então tenho tentado também um exercício de liberdade, para eu mesmo ter as minhas opiniões originárias sobre as coisas. Meio difícil, mas tenho tentado.
Não sei se vou resistir no caso desse filme aqui, pois realmente fiquei sem entender muita coisa, mas seria interessante tentar preservar um pouco essa sensação tão particular nossa. Afinal, toda vez que lemos algo direcionando as nossas opiniões, parece que estão nos roubando algo. Enfim, apenas uma reflexão aleatória...
O título mal traduzido em português
Não é que é mal traduzido, mas perde um pouco do peso original. A agente Starling, que é a personagem principal aqui (a Jodie), lembra de um acontecimento da sua infância, que foi quando ela viu cordeiros serem mortos na fazenda onde ela morou. Com o "inocentes" no lugar dos "lambs" (cordeiros, em português), esse sentido foi perdido, e ficou um tanto mais óbvio e bobo.
É claro que, por aqui, tudo tem que ser mais claro, os títulos tem essa coisa de serem menos enigmáticos e mais uma espécie de descrição do que o filme é. Sempre foi assim e é algo próprio nosso. Mas o título original é muito mais legal e dá algumas interpretações possíveis aí ao filme.
É legal a história contada pela agente Starling. É um certo anticlímax, pois parece que ela vai falar de um abuso ou algo assim, mas é só sobre ela se comover com a morte dos bichinhos numa fazenda. Mesmo assim, ela é uma personagem solitária, pois foi órfã dos dois pais muito cedo. Então o personagem carrega esse peso e essa inocência muito bacana.
E o psiquiatra, que de médico, virou paciente? Acho que tem toda essa crítica velada aos tratamentos psiquiátricos, e uma certa ironia do próprio doutor virando um serial killer... então o filme também oferece essa dimensão aí, para se refletir. Inclusive, em um certo momento, Hannibal é colocado numas grades como se fosse um bicho em exposição, numa das melhores cenas do filme (em meio, também, a ossos de dinossauros e outras coisas). Talvez também possa ser olhado por esse lado.
Nota do filme: 4/5
Então é isso, o filme tem alguns problemas em relação ao roteiro (que nem sempre é muito claro), principalmente na parte sobre a investigação policial, que não fica muito clara. A resolução dada para os crimes ficou bastante confusa e rápida, mas não é algo que chega a prejudicar muito o filme.
Cenas bem filmadas, boas interpretações, um tema instigante, fazem deste um clássico imperdível. Bem, se é imperdível eu não sei, mas acredito que seja uma experiência muito positiva. Vale a nota.
PS: Eu disse que ninguém ligava para homofobia nos idos de 1991 (ou, pelo menos, nem tanto quanto hoje), mas parece que eu estava errado. Segundo a Wikipedia, a comunidade LGBT reclamou da caracterização do serial killer como gay. Eles citam este artigo do NY Times e também outras fontes a respeito.
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