Primeiras Estórias, de Guimarães Rosa
Provavelmente você já deve ter ouvido falar que o nome do livro é "estórias" e não "histórias", e toda aquela explicação chata sobre isso; então não é sobre isso o que eu vou falar aqui (se bem que já estou falando, mas enfim). Está aí uma grande obra da literatura nossa, e é um privilégio poder falar o português para ler a obra-prima no sentido original, e blá blá blá. Bem, vamos logo ao que interessa.
Livro legal, mas com uma linguagem muito, muito difícil
Bem, este é um livro de contos - as "estórias", e com a letra "e", não nos esqueçamos - e aí é tudo escrito com o estilo bem amalucado e complicado do Guimarães. É um pouco difícil descrever o estilo de linguagem que ele usa (seria uma espécie de língua de louco misturada com idioma de maluco), só mesmo lendo o que o cara escreveu para entender o que eu estou falando. É um estilo que tenta ser poético, mas é em forma de prosa. E ele também tenta usar a língua de jeitos inovadores e colocando o estilo acima de tudo.
Com isso, não quero dizer que é um livro ruim. Mas nem de longe. Na verdade é muito bom (e aqui você já percebe a nota que eu vou dar, né; já adianto que é o famoso "4/5" não comprometedor e isentão), mas vai depender muito do seu humor e de quanto você "compra" a proposta do autor, entrando na brincadeira dele. Não é um livro acessível, não exatamente por ter uma linguagem difícil no sentido da erudição, mas sim no quanto o autor aposta numa radicalidade na hora de tratar a palavra.
Ou seja, na verdade ele chuta o balde mesmo. O Guimarães não tá nem aí para as convenções da língua (na verdade, às vezes soa um tanto convencional, mas tudo bem), ele escreve do jeito que ele acha que tem escrever mesmo, inventa palavras o tempo todo, complica a ordem de fala, e tudo o mais. O resultado final é um pouco ambíguo, às vezes é difícil de entender o que ele quer dizer, mas no final das contas eu acho que é mais positivo do que negativo.
Eu poderia, aqui, ficar pesquisando livros de literatura e papagaiando o que os entendidos do assunto falam sobre ele (e, com certeza, são todos exaltando o autor e falando coisas mais sábias do que você e te reprimindo por você ter a ousadia de, talvez, não gostar do que leu), mas como a minha proposta é enfatizar a minha relação muito particular com os livros, não vou fazer isso. Então eu digo mais ou menos assim: gosto e não gosto de Guimarães.
Eu mentiria se eu dissesse que não dormi e que não fiquei muito frustrado em algumas partes. E sim, realmente em alguns momentos eu literalmente dormi, fechei o livro e me bateu um sono absurdo, porque a linguagem simplesmente era muito tediosa e extremamente confusa, que apenas o que me restou foi fechar os olhos e dormir. Em outros momentos, porém (mais descansado), consegui gostar da leitura e entendi o quanto inovador ele estava tentando fazer. Mas aí é que tá, é algo que vai muito do quanto você entra no jogo dele.
O ponto é: Rosa consegue nos levar a brincar o jogo que ele quer jogar? Acho que mais ou menos. Ele coloca uma barreira em relação ao leitor normal. Você tem que gostar muito, mas muito das suas inovações estilísticas, para conseguir apreciar a obra. Não que isso seja muito difícil (afinal, o cara é bom mesmo), mas ele poderia ser um pouco mais gente fina e facilitar o caminho. Ou, então, isso talvez seria ceder um pouco em relação às suas ideias artísticas e blá blá blá, então eu não sei. Trata-se, então, de um autor radical na proposta.
O livro Primeiras Estórias, na verdade, dá uma facilitada. Como são histórias curtas, é um bom jeito de se introduzir no estilo único deste autor, que é totalmente inclassificável. É o Guimarães Rosa, e pronto, acho que só ele escrevia deste jeito. O único problema é que "este jeito" às vezes fica entre o leitor e a história, e pode acontecer de, muitas vezes, você não se sentir imerso nela, mas o tempo todo ouvir aquela voz na sua cabeça: "estou lendo um livro de Guimarães Rosa".
Seria, mais ou menos, como o equivalente literário de um filme do Tarantino, ou uma interpretação do Al Pacino (tudo "tino" no final, se você notar; ah, Rosa se esbaldaria com isso!). Nos filmes do Tarantino, sempre tem um som meio skiffle tocando, ou talvez poderia-se dizer um surf rock (aquela trilha sonora com guitarras meio sinistras), e algo de violência rolando. Aí você vê e pensa: "é, é um filme de Tarantino". O diretor pesa a mão. O mesmo pode-se dizer de uma atuação do outro Tino, o Al (Pacino): é um bom ator e tal (quem iria negar isso), mas você sempre sabe que está lá o Al Pacino, "alpacinazeando-se" em toda a sua glória, com aquele olhar de peixe morto. Pois é...
Não é que isso seja um problema, mas aqui temos a mesma coisa. O livro grita para você: sim, sou um livro de Guimarães Rosa. Ele não é um autor que se "dilui" na sua exposição, dando ênfase aos fatos narrados. Ele é um livro que é todo estilo, e que tenta (pela força da linguagem), criar um ambiente de fantasia e envolver o leitor. E até consegue, em alguma medida, tirando o fato de que às vezes (muitas vezes) é muito confuso.
Historinhas para boi dormir e outras coisas
Na verdade aqui é só uma brincadeira, eu acho que as histórias desse livro são coisa boa. Temos, aqui, uma grande peça de literatura nacional (85% verdade, 14% ironia)*, algumas das histórias são coisa finíssima realmente. "Historinhas", eu disse? Ouça o chicote da sua professora de literatura, dando aquela explicação chatérrima de que é "estórias" e não histórias, que ele quis dizer alguma coisa que você não se importa a respeito disso, e blá blá blá. O livro é muito mais do que essas banalidades contadas por professores de literatura e esquemas de cursinho.
É um livro, como já dito, em que você tem que entender que o autor não vai facilitar pra você, que ele vai tentar poetizar a coisa e mudar muito (mas muito mesmo) a forma como a linguagem é usada. Os famosos neologismos são constantes, pode-se quase dizer que nem é português que ele tá fazendo. Ele inventa palavras o tempo todo, e o que é mais espantoso, elas fazem sentido, mesmo sendo inventadas. Isso é bacana dele, ele sabe jogar com os sons e com as estruturas da palavras. Dá um resultado interessante.
Algumas histórias são realmente pequenas preciosidades. Gostei muito do "A Partida do Audaz Navegante". Achei que é uma pequena joia, construída à perfeição, e além da linguagem doidona e confusa dele (que, aqui, é algo de contida), acho que é um exemplo muito bem feito de concisão. Ele conta muito em apenas poucos parágrafos, sem se perder em detalhes irrelevantes e sem perder as rédeas da história. Pois é, essa aí é muito boa. (E devo fazer uma pequena confissão: é um conto que me fez chegar às lágrimas ao final. Verdade mesmo...)
Enfim, eu arriscaria dizer, com toda a minha impretensão, que é um livro de contos bastante irregular, alguns vão botar você pra dormir, outros você não vai entender nada, outro pode te levar às lágrimas, etc. Essa é a opinião sincera, mas se você quiser outra coisa, pode ler os sabichões da literatura se acabando fazendo análises acadêmicas (ou pseudo-acadêmicas) do negócio, o que não me importa nem um pouco (e acho que esse tipo de coisa só afasta o leitor).
Todas as histórias, no geral, tem um ar um tanto fantástico, e uma coisa que eu achei positiva, é que às vezes a linguagem do Guimarães parece usar de livre associação. Então ele tem um ar surreal que é bem interessante. Ele vai lá, emenda uma palavra na outra, e às vezes o sentido é formado por uma soma de pequenas coisas desconexas e inconscientes. Nem sempre o sentido vai ser muito claro, mas é um jogo bacana, é quase como tomar uma droga literária (no bom sentido, é claro).
Na verdade, o resultado é menos lúdico do que pode parecer, mas é uma linguagem "cheia", ele é como se fosse um ruído constante que nunca larga a mão, sempre fica aquela coisa martelando "guimarães, guimarães, guimarães", quase como se fosse uma literatura punk hardcore, só que em vez de uma bateria-metralhadora, você tem uma "parede de som" de termos estranhos e uma ambientação do sertão que é sempre constante. Então, se não é tão lúdico e tem a dificuldade, pelo menos tem a consistência.
O sabor dos sons de Guimarães Rosa
Vou falar uma coisa bem pedante e babaquinha aqui, mas assim, parece que os sons que o Guimarães levanta "enchem" a boca, dá vontade de ler certos trechos em voz alta e literalmente saborear as palavras. É como se as palavras tivessem meio que um gosto de café, ou de fruta, na boca. Fica aquele sabor amargo, mas que pelo menos é algum sabor, e é algo muito próprio. Digamos que a literatura roseana (ui, usei um termo charmoso) deixa um certo after-taste na boca. Tipo tomar um vinho, ou sei lá.
E a sensação é de ficar bêbado mesmo. Como já dito inúmeras vezes aqui, é claro que depende da margem a que estamos dispostos a jogar o jogo dele, e o resultado disso pode ser apenas chato (e, sinceramente, muitas vezes é), mas se entrar na brincadeira, e entrar fundo, você vai viajar completamente na proposta dele. Chega a ser algo quase psicodélico.
O estilo dele também tem dessas de soar ridiculamente erudito, acho que de propósito pelo autor. Ele enche de termos complicados parece que de propósito, como se fosse uma crítica a esse estilo de linguagem. Isso fica bem claro num dos contos em que um cara sobe numa palmeira (esqueci qual o título dele), ele lá faz uma salada de termos complicados, para você respirar o ambiente inóspito de um escritório ou de uma repartição pública. Então acho que o livro tem esses jogos de efeito também.
Bom, o negócio é que este autor é realmente muito especial, um estilo absolutamente único, e aqui, como são pequenas historietas ("estórias, estórias"...), é um jeito meio levinho de introduzir aos livros mais fodões do autor (como o famoso "Grandes Sertão: Veredas", por exemplo). Ou seja, é uma vaselina aí pra entrar mais devagar nos livros mais importantes do autor, então pode ir fundo.
Uma dica é ler o livro numa tacada só
Na verdade, acho que falei errado, não é ler o "livro" numa tacada só. É ler, na medida do possível, numa tacada só. Porque assim, o livro é complicado, e sua mente fica voando e tal, tentando entender a loucura que ele tá escrevendo, mas o sentido é formado mais fácil se você não se deter tanto e deixar a leitura fluir. Então é isso, a dica é deixar (o quanto for possível) ir fluindo, e não se preocupar tanto em entender frases isoladas.
Fazendo assim, acho que tive resultados mais satisfatórios. Eu acho que ele (o autor) quer levar você pelo ritmo, por um sentido geral que só pode ser atingido se você vai lendo meio que rápido. Não é, com isso, apressar a leitura, mas tentar entender esse movimento geral. Bem, é apenas uma sugestão de leitura, eu acho que se ficar só nas frases isoladas e picotando o texto, a coisa não flui.
As histórias são variadas, coisa e tal, mas como ele é um autor "do sertão", a coisa sempre vai ser meio sertaneja, então o climão das histórias e os enredos quase sempre circulam por essa temática. É sertão não no sentido da música sertaneja, é claro (por favor não confunda), mas sertão sertão mesmo, esses lugares do Brasil em que todo mundo é meio perdido, tudo é meio rural, etc e tal.
Nota para o livro: 4/5
Como já tinha dito, tá aí, esta é a nota, a famosa nota isentona que não se compromete com nada. Você elogia o autor, lhe dá o devido valor, mas também deixa aquela pontinha de que alguma coisa não gostou. E é bem isso, eu nem de longe vou falar que é um livro ruim, na verdade eu gosto bastante dele. A linguagem poética e inovadora do Guimarães é show de bola. Não é essa a questão.
Mas fala a verdade, como dar uma nota máxima para um livro que te faz dormir em alguns momentos? Ele realmente me fez dormir, e não foi porque o livro me acalmou nem nada, foi de tédio mesmo. Os fatos são esses e a gente pode fingir ou não fingir, e a maioria finge pra pagar de entendedora. Eu também faço isso às vezes (sou humano), mas sei lá, às vezes enche o saco fingir tanto.
Tem que entrar na do cara. São histórias bem escritas, mas o estilo é muito peculiar. Ele propõe uma nova maneira de enxergar a linguagem, procura extrair o máximo do potencial dela (ou pelo menos usá-la de outras maneiras), saindo do convencionalismo. O resultado fica a critério de cada um. Eu acho que vale a pena. Mas por Deus, às vezes não entendo nada. E se sentir burro não é legal, mas é um livro que vale enfrentar.
*1% de imponderável.
Comentários
Postar um comentário