Sybil, livro de Flora Rheta Schreiber

Livro muito top sobre uma mulher que tinha múltiplas personalidades (dezesseis, no total). Muito boa leitura! Na verdade, suspeito que deva ser uma das melhores coisas que li recentemente. A leitura é ágil, descomplicada, mas sem também cair na banalidade. O caso da Sybil chama muito a atenção, bem como as causas do seu problema (longamente detalhadas no livro).

É uma leitura que vai fácil, você vai se ver por várias vezes pegando o livro novamente só para ler mais um pouquinho. É daqueles livros que você não quer largar mais. Altamente recomendado! Spoilers em seguida.

Muitas personalidades e traumas de infância

Pois é, o livro é o que se poderia chamar de "romance psicológico", mas no caso psicológico literalmente mesmo, pois se trata de um caso de saúde dessa área. A autora escreveu com base em um caso real, em colaboração com a psiquiatra responsável. E ele avança bem em temas típicos da psicologia, falando de Freud, de tabus, de complexos de Édipo/de Electra,  essa coisa toda. A psicanálise entra em peso aqui na narração, mas sem ficar complicada demais ou maçante demais.

A autora tem o grande mérito, raro na verdade, de conseguir usar uma linguagem clara e objetiva, mas sem cair numa simplificação rasa. O assunto é complexo e você vai se ver parando a leitura diversas vezes para pensar no que leu, ou seja, ele não simplifica demais os problemas psicológicos. Mas, por outro lado, a linguagem em si não é confusa, é bem objetiva e saborosa de ler. Parece que esta autora aí teve uma longa carreira no jornalismo, então a leitura é bem isso aí mesmo, um texto de característica mais jornalística, da melhor qualidade.

Sybil, supostamente, é um caso raro da medicina de múltiplas personalidades, ninguém até então tinha mostrado tantas delas ao mesmo tempo. Existe uma certa polêmica se o caso realmente foi verdadeiro ou se Sybil "fraudou" o seu problema (talvez em conluio com a autora do livro), fingindo ter várias personalidades, tornando o tema bastante controverso. Acho essa discussão inútil em termos literários. Mesmo se fosse uma narrativa completamente ficcional, ainda assim teria o seu valor (afinal, a maior parte dos grandes romances são ficcionais mesmo e ninguém reclama). 

Ele se vende, é claro, como uma narrativa de não ficção, mas pode ser encarado como uma boa ficção sem maiores problemas. O fato é que Sybil realmente tinha problemas e fez um tratamento com a médica do livro entre os anos de 1950 e 1960, então algum problema ela tinha. E o transtorno de personalidade múltipla (parece que agora chamam de outra coisa, uma "dissociação" de não sei o quê) é um problema real e bem conhecido pela medicina hoje. Na época do livro, era um transtorno ainda muito pouco explorado, então o livro serviu para chamar a atenção para o caso.

Dezesseis personagens dentro de uma mesma mulher

O livro tem o grande mérito de conseguir ter inúmeras personagens e, mesmo assim, não ficar muito confuso. É um exemplo de como tratar de maneira muito clara (e ainda assim atrativa) um assunto que, na mão de um autor menos habilidoso, viraria uma salada e perderia o interesse completamente. É possível acompanhar cada um desses "personagens" (as múltiplas personalidades de Sybil) de maneira tranquila e sem ficar revirando a cabeça, sabendo mais ou menos o papel de cada uma delas e quem elas são. 

As personalidades não são só aspectos aleatórios de uma pessoa, elas são justificadas psicanaliticamente. Por exemplo, uma das personalidades era a memória de todas as outras (ela funcionava como uma observadora, que sempre acompanhava todas as outras), ou seja, era o fio condutor da personalidade fragmentada dela. Outra era uma maneira de a personagem expressar sua raiva, sem ser sufocada por ela. Então cada uma tem uma razão de ser dentro da história cheia de traumas mal resolvidos de Sybil.

A história tem momentos bastante pesados (como abusos e outras coisas), além de também outras coisas muito graves, como negligências, perdas e abandonos. A gente vai acompanhando isso e entendendo porque essa mulher se fechou atrás de um verdadeiro exército de personalidades, que somente serviam para proteger sua integridade mental minimamente. Como os traumas foram muito fortes, a mente de Sybil se viu obrigada a agir dessa maneira, para proteger a própria Sybil, incapaz de encarar a realidade dos seus duros traumas.

Então o livro é um passeio fascinante pela mente humana, e independe isso se a história em si é real (ou até que ponto ela é real), ela é suficiente verossímil e embasada em informações médicas, para sustentar a coisa toda, e nos fascinar ao apresentar aspectos misteriosos dela. É um livro que nos mostra também como podemos ser múltiplos, não de maneira patológica como a Sybil, mas como temos vários "eus" que nos servem a diferentes funções. É, então, uma leitura de profundo auto-conhecimento.

Do jeito que eu tô falando, parece que é um lixo de auto-ajuda. Bem, não é, é um romance muito bem escrito sobre um caso muito grave e, ao mesmo tempo, fascinante, exposto de maneira brilhante e com uma clareza exemplar. Vale bem a leitura.

Sybil não é apaixonante, mas o seu caso é

Pois é, diferentemente de outros livros com personagens femininos, esse aqui não é exatamente apaixonante. Na verdade, ficamos condoídos por Sybil, realmente comovidos com todo o seu sofrimento. É perfeitamente possível entender como ela chegou aonde chegou (e por que ela chegou) e isso é explicado muito bem no livro. Sentimos muita empatia pela personagem e ficamos genuinamente felizes quando ela começa a superar seus problemas.

Sybil é esta mulher genial, cheia de qualidades e com uma inteligência bem acima da média, pinta muito bem, dentre outras coisas. Mas a autora opta por uma narrativa mais sóbria, sem ficar "enchendo a bola" da Sybil, o que poderia tornar o romance muito açucarado. Sobriedade é a palavra certa aqui para realmente descrever este livro, e funciona muito bem, ele foge das armadilhas que deixariam o texto cansado ou pesado demais. Ou seja, Sybil é fodona, mas o livro não fica se apegando a isso (até por que ela não é tão "fodona" assim, pois a sua doença a inabilita para quase todas as coisas).

Até consigo ver esta história na mão de outro autor, com ele "pesando a mão" falando como Sybil era essa mente brilhante, esse poço sem fundo fascinante e blá blá blá, o que tornaria a história uma coisa horrível e forçada. O texto aqui é certeiro, a experiência jornalística da autora matou a pau aqui. Tudo é tratado de maneira discreta, sem grandes firulas, mas ao mesmo tempo com um estilo de exposição fascinante. É leitura das boas mesmo.

O foco do livro realmente são as múltiplas personalidades, o sofrimento de Sybil, suas memórias, sua luta interna, bem como a falta de rumo e (os eventuais) acertos do tratamento utilizado. Vamos, aos poucos, entendendo a situação dela e torcendo pela sua recuperação. 

O final parece que foi um pouco apressado

As partes finais do livro meio que correram para dar uma solução ao caso. Somos introduzidos à personagem Flora - que é, na verdade, a própria autora do livro - somente no final, e isso soou um tanto desajeitado, parece que ela caiu de paraquedas na história. Poderia ter sido um pouco melhor desenvolvida. Mas nada que chegue a comprometer muito. O tratamento também começa a funcionar "demais" no final, certamente para conseguir encerrar o livro a tempo. Em alguns momentos, ficamos perdidos sobre o que a médica está realmente fazendo, mas acho que essa foi a ideia mesmo, pois por anos o tratamento dela simplesmente não funcionou.

O que eu achei mais fascinante no livro é como ele é bem amarrado. O tema é bastante complexo e poderia ser confuso, mas conseguimos ter um panorama claro da situação. É muito fascinante observar como o inconsciente humano, nesse caso, desembocou em diferentes personalidades, como uma manifestação direta dele. Sybil é uma pessoa que sofre de uma doença, porém jamais "louca", é uma mulher mutilada que próxima aos quarenta anos não tinha realizado quase nada para si e vivia presa ao seu problema e ao seu passado. As demais personalidades, em diferentes graus, não "rasgam dinheiro" (apesar de uma gostar de quebrar janelas e tal), são aspectos de Sybil que agem de maneira mais ou menos racional.

As personagens são pessoas de verdade, com características muito próprias, jamais são estereotipadas (não vamos ter, por exemplo, "Sybil mal", ou simplificações desse tipo), e isso ficou muito bem descrito, você percebe como são pessoas verdadeiras em toda a sua complexidade, que não admite rótulos. A autora aqui desenvolveu dezesseis personagens diferentes de uma maneira bastante sucinta, com uma escrita interessante e atraente, ao mesmo tempo amarrando tudo dentro de um complexo caso médico. Parece um grande feito! De fato, é um livro que demonstra grande habilidade literária.

Mas o final, como já falado, sofre de um pouco de pressa, mas é só uma observação bem casual, não chega nem de longe a comprometer a leitura. Mesmo este final, em alguns momentos consegue ser pausado o suficiente para dar um final digno à leitura, sempre com aquela sensação de que tem "algo a mais", que aquilo realmente é uma situação concreta e realista. É um livro muito bem feito.

Nota: 5/5

Pois é, dou a nota máxima para esse livro, é uma excelente leitura que prima pela sobriedade e, ao mesmo tempo, pelo estilo de escrita agradável. A leitura é ágil e envolvente, é o clássico livro de querer pegar toda hora para saber mais e mais. É muito bom quando livros são assim.

Há filmes e filmes sobre essa história (na verdade, um de 1976 e outro mais recente, de 2007), não os assisti, mas vi algumas cenas com a Sybil interpretada por uma Sally Field com cara de chorona, e me pareceu uma ótima interpretação. Mas teria que ver completo para poder opinar.

O caso de Sybil nos fascina, nos interroga, etc etc, enfim, toda essa coisa que você já sabe. É um livro muito bom, com alguma controvérsia sobre sua veracidade, mas que tem o mérito de soar muito factível e bem embasado pela psicologia. E de fato, ele discute temas dessa área de maneira muito natural e atrativa. É como ver um bom programa de caso médico, é uma literatura que trata de medicina mas de uma maneira que consiga atrair a atenção. Recomendado.

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