Vieira e Vieirinha - Só Catira Vol. 2 - álbum de Vieira & Vieirinha

Pois é, meus amigos, sigo na minha "aventura" de tentar levar às máximas consequências os meus intentos desesperados (aleatórios e atrapalhados) de ser o mais eclético possível. Vivemos numa era privilegiada para isso. Ao toque de um dedo, posso acessar desde o metal mais pesado, até o sertanejo, passando por literalmente qualquer outra coisa. Por que não aproveitar isso, não é mesmo? É como se tivéssemos uma loja de discos completa nas nossas mãos, para "brincar" de explorá-la da melhor maneira possível.

E aí é isso, arrisquei-me aí num sertanejão tradicional, umas modas de viola aí caipira, e topei com essa simpática dupla aí de eras mais antigas. Fui logo capturado pela capa cheesy e exagerada, brega que só, com uns tiozão meio bigodudo com aquela cara de caipira que só os legítimos caipiras sabem ter. Logo fui atraído e mergulhei no som.

Violas e mais violas, e é isso aí

O som dos caras é divertido, lembra a roça, tem a sensação de autenticidade muito diferente dos sons mais modernos, que incorporam muitos outros elementos e soam mais pop. Aqui, temos as legítimas violas, cantadas por pessoas do interior mesmo, de décadas atrás numa época muito diferente da nossa. O som é real, é caipira, é antigo, as letras são interessantes e descrevem a vida na roça. Os temas passeiam entre o romântico leve (mas de um jeito "caipira", algo ingênuo, interessantemente não muito brega), descrições das paisagens interioranas, até coisas mais bem humoradas.

É um som aí que vai te levar para o interior de São Paulo, Minas Gerais e afins, com os belos acordes de violas e algumas interessantes melodias. Não tem nada muito elaborado, as músicas são todas meio iguais, mas é um som interessante e tradicional. Na real mesmo, não sei se ouviria outras vezes (não faz tanto o meu estilo), mas vale aí a experimentação.

Lembra, é claro, aquelas duplas que a saudosa Inezita Barroso levava para aquele programa de televisão dela lá, o "Viola, Minha Viola", que deve ter servido aí pra manter e divulgar essa arte que poderia ter sido perdida com grande facilidade, nesse moedor de carne que é a vida moderna. Aliás, certamente eles já devem ter participado do programa da saudosa violeira, uma pesquisadora do folclore nacional "falsa caipira", nascida em São Paulo (capital), mas admiradora e conhecedora da vida do interior (se bem que na época em que ela nasceu, isso aqui devia ser um "roção", mas tudo bem). 

É um som divertido, algo poético, não tem grandes frescuras (é mais as violas mesmo), a produção é praticamente zero (o que é bom), só um som sóbrio mesmo capturando toda a imponência desses instrumentos. Sei que muita gente torce o nariz para esses sons, mas o fato é que a viola é um instrumento belíssimo, um desenvolvimento aí de outras violas advindas da Europa e até dos países mais árabes (a lição de casa da Wikipédia me disse isso aí), então é um instrumento interessante que merece ser contemplado e admirado, produzindo a diversidade sonora desse nosso Brasilzão.

Angus Young "caipira" e outras viagens

Pois é, aí eu dei aquelas viajadas, aquele "tchatcheeng" da viola lembra um pouco certos acordes do hard rock, se você pensar bem. Será que existe um som que mistura as duas coisas? Aí seria demais, mas é bem possível que exista algo disso aí. O fato é que o sertanejo mais moderno incorporou elementos do rock (só ver certas músicas do Chitãozinho & Xororó, que são já praticamente um soft rock), e o próprio rock tem suas origens retraçadas até os sons country norte-americanos. Então, no fundo, tudo tem a ver com tudo.

Mas o negócio é o som estridente da viola, ele tem uma pontinha, mas bem "pontinha" mesmo, de um acorde longo de uma banda estilo AC/DC. Viagem demais? Pois é. Na verdade não tem nada a ver, mas preciso encher de assunto isso aqui, para o texto não ficar tão curto (na verdade, achei que o som tem um pouco a ver mesmo, mas é difícil explicar). O velho Raulzito já apontava os cruzamentos que existem entre ritmos tradicionais brasileiros e o rock'n roll (principalmente o baião), então é uma seara que vale ser explorada e acompanhada. 

No fundo, o que vale é curtir a boa música.

A dança catira, que aqui é preservada pela dupla

Como o título já aponta, os supracitados são conhecidos como "reis do catira", e esse ritmo nada mais é do que uma dancinha meio tonta (e tradicional), em que os caras ficam batendo o pé e outras coisas. É algo que faz parte do nosso amplo e algo desconhecido folclore nacional, e que é exemplificado aqui. O ritmo é, então, uma moda de viola que incorpora elementos da tal dança catira. Como sou bicho da cidade, nem sei do que se trata...

Por isso, ao ouvir, tinha toda hora sons de "palminha" e uns sons graves (como se fossem botas pisadas no chão), que é a única marcação percussiva que a música tem (exceto os da própria viola, é claro). Achei que era um maneirismo tosco da produção, que em vez de deixar os sons secos da viola, quis inventar e botar um ritmozinho meio bobo, para ficar mais palatável. Mas não, na verdade as palminhas são essenciais para incorporar a dancinha da catira. É parte, portanto, integral do som e compõe esse estilo.

Então tá lá, são modas de viola meio dançantes, os temas são chamativos da vida da roça e muito diferente da vida atual da cidade, o que transporta a gente para outros lugares. A dupla é algo autêntico, não essas coisas fake de hoje, são caipiras legítimos fazendo caipirices, então ganha alguns pontos neste quesito autenticidade (o que é sempre válido em tempos tão farsescos e fingidos).

Na verdade, nada contra a evolução do ritmo (que ficou uma coisa pausterizada, bebendo até do rock mais genérico, passando por outros ritmos mais comerciais), é natural que o som passe por novas propostas e modernizações. Se não fosse assim, jamais existira o rock, estaríamos ainda hoje ouvindo o blues acústico dos anos 1920. Só tivemos o rock quando resolveram pegar o blues e botar uma guitarra nele, e o resto é história, outros ritmos foram se juntando e hoje temos essa maravilha. Então não podemos ser contra as mudanças também.

Enfim, mas o fato é que aqui temos um som tradicional mais legítimo e é isso aí.

Nota do disco: 4/5

Pois é, pra falar bem a verdade, eu nem gostei muito do som, não sou grande admirador do som caipira. Mas gosto mais desse som do que do sertanejo comercial (que, para mim, tem pouco ou nenhum interesse artístico), é um som que tenta preservar aí certas sonoridades tradicionais e legitimamente brasileiras. Só isso, já vale a pesquisa.

Daria um 3/5 tranquilamente, não é um som ruim, ele é o que ele é, uma manifestação autêntica da cultura do interior. Só vou dar um ponto a mais, porque eu acho que essas coisas tem um certo valor cultural e que vale serem preservadas e repassadas. Sei que tem por aí uma loirinha bem simpática (dançante e moderna), chamada Bruna Viola, inclusive a moça foi apadrinhada pela já citada Inezita Barroso e consegue incorporar alguns elementos pop sem estuprar muito as tradições da viola.

Então bem, essa dupla aí é daquela mesma leva de coisas do tipo Tonico & Tinoco (sempre como o "e comercial" bem brega, pra completar o climão), ou seja, sua mãe que nasceu no interior e tá cheia de parentes lá deve conhecer bem e até cantarolar uma música ou outra. Mais um item aí nas minhas aventuras musicológicas, tentando passear por ritmos e por coisas inusitadas.


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