O fenômeno das booktubers
É com alguma surpresa (e também com otimismo) que eu recentemente conheci o tal do "booktuberismo", ou melhor colocando, o fenômeno das booktubers, que nada mais são do que garotas na faixa dos 20 aos 35 anos mandando ver no YouTube, falando de livros e assuntos relacionados.
É um fenômeno interessante e surpreendente, porque nunca pensei que eu iria ver canais com centenas de milhares de inscritos sobre o assunto "livro". Geralmente este é um assunto sem popularidade (assim eu pensava), mas as garotas booktubeiras provaram que não. É algo bom, gerando alto engajamento (ou seja, não é um vídeo "morto", mas a audiência participa e é vivamente interessada), circulando o assunto e promovendo divulgações.
Então não vou só elogiar, pois me parece que há um cruzamento perigoso entre divulgação/marketing e opinião isenta. Bom, "perigoso" é exagero, na verdade são só garotas querendo pagar as suas contas (e ganhar um por fora), o que é completamente legítimo, mas que joga na lata do lixo qualquer pretensão de isenção ao isso ser feito.
Vamos aos detalhes.
Um fenômeno eminentemente feminino
Então tá aí, praticamente todas as youtubers livreiras (as booktubers) são do sexo feminino, quase sempre muito jovens, raras ocasiões ultrapassando os trinta anos. São jovens desenvoltas, quase sempre atraentes (ainda que este não seja o destaque), engraçadas e sem firulas para falar. Ou seja, promovem uma divulgação aberta e solta sobre o assunto "livro", saindo daquela sensação empoeirada e abafada dos textos mais acadêmicos (portanto chatos).
E digo que é feminino, porque realmente, a predominância delas neste nicho é bastante alta, praticamente todas são mulheres mesmo. Na verdade, a única exceção que eu encontrei foi de um sujeito gordinho que claramente é homossexual (e sem problema algum com isso, é evidente), mostrando então um certo afastamento dos "machões" deste gênero. Há, então, uma feminilidade no assunto.
Cabe aqui especular as relações entre "livrismo" e feminilidade, e acho que tem muito a ver com o aspecto da arrumação, do gosto por ambientes mais bonitos (no que o livro colabora bastante), bem como o aspecto da imaginação, da contemplação, que geralmente são características associadas a este gênero (e que é bem presente nos livros). "Ah, você está essencializando a mulher". Talvez, mas este não é o lugar para discutir isso, e acho que o ponto ficou aqui bem claro.
Na verdade, o homem, preocupado em provar a si mesmo e em afirmar o tamanho (real e imaginário) do seu órgão fálico, não vai se preocupar com coisas como contemplação e arrumação de estantes, nem com capas bonitinhas ou contos imaginativos (a não ser os que reafirmem o já citado órgão), então acho que por isso não vemos tantos homens falando sobre o assunto (mas vemos trilhões falando sobre carros, sobre política, ou sobre qualquer outra coisa que o faça fingir estar em posições de comando).
Talvez então por isso vemos um aspecto feminino neste fenômeno, o que é um dado bastante interessante.
Aspectos de papelaria entrando no jogo
É isso mesmo. As nossas heroínas booktubeiras apelam para a sensibilidade papelarística para divulgar livros e estimular o hábito de leitura. Nada mais natural, não é mesmo? Afinal, livros são feitos de papel. Tá aí uma estratégia de divulgação que o mais empoeirado dos acadêmicos jamais pensou, focados que estão nos aspectos teóricos e abstratos da coisa.
Livros são objetos. São matéria. É engraçado quando ouvimos falar de "materialismo", mas num sentido abstrato, como uma teoria filosófica, e não com referência de fato à matéria. E qual é a matéria do livro? O papel, a capa bonita, o peso dele, como ele fica na estante, etc. As booktubers abusam e usam deste aspecto, fazendo vídeos de "unboxing" (desempacotamento), de arrumação de estantes (alguns longos, com mais de trinta minutos, em que você vê a guria arrumando tudo pra lá e pra cá), e enfim, muitos outros enquadramentos que pegam na questão do livro ser uma coisa (o que de fato ele é) e ser de papel.
Uma das mais famosas booktubeiras (e a mais legal, na minha opinião) inclusive montou uma loja de papelaria, onde vende cadernos, marcadores de páginas, papeizinhos bonitos dos mais diversos tipos, bem como todo tipo de quinquilharia associada. Não vou falar aqui o nome dela, pois não é o objetivo deste texto, mas é ela mesma que você já sabe quem é (e como também pretendo partir pra crítica na segunda parte, não quero "fulanizar").
Enfim, é interessante ver como, com bastante despretensão, sem firulas na hora de falar (sem apelar para teorias "complicadas"), desmistificando o livro de uma maneira natural e tranquila, e apelando para aspectos de papelaria ou coisas secundárias como arrumação de estantes e coisas do tipo, elas conseguem muito mais sucesso na divulgação e na estimulação ao hábito de leitura, que muita gente "sabida", que complica o assunto sem necessidade. Coisa que muitas "cabeças pensantes" não conseguem sozinhos, enrolados nos seus egos e perdidos em teorias vazias.
O elogio ao clichê e à diversão que ele proporciona
Uma dessas youtubeiras dos livros tem dezenas de vídeos somente recomendando os livros mais clichês possíveis, sem qualquer receio ou medo de esconder este fato. Pelo contrário, até o título diz isso abertamente, enxergando o clichê como uma diversão (ou seja, uma qualidade) e não como um defeito.
Mais uma vez, não há qualquer empecilho ou artificialismo em falar isso. A youtuber fala mesmo que gosta dos clichezões, das histórias previsíveis, dos finais felizes, e pronto, e recomenda muitos livros e autores neste gênero. A maioria dos especialistas em literatura, creio, vai tratar o clichê como algo negativo e não desejável, então esta é mais uma estratégia surpreendente (e muito efetiva) das nossas heroínas divulgadoras.
Como são vídeos de jovens, voltados a um público jovem (mas que também podem atingir o adulto), e sem qualquer grande pretensão ou afetação, tais colocações soam naturais e divertidas. E é um grande trunfo na hora de recomendar a leitura. Pois o cara vai lá e quer estimular o jovem a ler, aí o coitado vai lá e escolhe algo que o interessa. Pronto, é "má literatura", vá ler seiscentas páginas de Grande Sertão: Veredas ajoelhado no milho. Aí não dá, isso espanta qualquer um.
Em alguns outros vídeos, eles trabalham o tema dos clássicos de maneira sutil, num bate-papo aberto e tranquilo, sem grandes complicações. Os vídeos das booktubers são marcados por sinceridade (mais ou menos; sobre isso, vamos detalhar mais ao final), despojamento, linguagem informal e ambiente divertido. A booktubeira que eu mencionei mais acima (a que tem a loja de papelaria) é, por exemplo, uma figuraça, todo vídeo começa com um papo meio louco e destrambelhado, o que torna os seus vídeos bastante divertidos e sua figura, carismática.
A promiscuidade com as editoras e com os autores
Tá aí agora o ponto em que eu vou descer o martelo nessas nossas divulgadoras (que eu chamei de heroínas, mas que agora estariam mais para "vilãs"). Elas claramente (e sem nem ao menos esconder isso muito) são mais do que promíscuas com os autores e com editoras, recebendo presentes dos mesmos (os próprios livros, no caso), o que configura um claro e aberto conflito de interesses. Com que cara eu resenho algo que eu ganhei de presente? Por acaso alguém critica presente na vida?
Então é algo que é de uma característica bastante duvidável, com importantes abalos na credibilidade. Não quero falar em "ética", porque isso é besteira: enquanto tem gente por aí "roubando e matando" (sic), as nossas garotas somente querem falar dos seus livros, de uma maneira mais ou menos divertida (e serem remuneradas, é claro). Nada mais justo. Mas falar de algo com isenção e, ao mesmo tempo, receber para isso, é algo bem complicado.
E não são só os presentes. Uma das booktubeiras tem uma tabela de preço no seu site. Mil e tantos reais para falar isso ou aquilo de um livro. A opinião vai ser isenta? Mas é claro que não. Ela diz que vai ser, e tal, mas isso é simplesmente impossível, é uma opinião encomendada (literalmente encomendada, no caso). Então esta opinião e o nada valem basicamente a mesma coisa (na verdade, o nada é melhor, pois é mais isento).
Não quero fazer também grandes odes à isenção (inclusive existe a figura desprezível do "isentão", que muita gente critica, como por exemplo o sujeito que vota no Ciro Gomes e outras figuras do gênero), todo mundo age por algum interesse o tempo todo. Mas é requisito mínimo tentar ser sincero, ao menos em alguma medida, ao se falar de uma relação estética com alguma coisa. É este o objetivo, humilde, que tento empregar aqui. E nunca recebi para isso, e se recebesse, iria fazer outra coisa (falar de outra coisa).
Acho que, só se eu realmente estivesse passando fome, eu me proporia a uma tarefa dessas. A gente vende muita coisa na vida (alguns vendem o corpo), vendemos nossa força de trabalho para as forças maléficas do capitalismo, etc e tal, mas vender a opinião (e ainda sobre algo inofensivo, como livros) para mim já é um pouco demais. E as booktubers fazem isso sem qualquer problema, no que parece ter virado um novo padrão.
Nos comentários, muito engajamento, mas também muita babação de ovo. Ninguém coloca o dedo nessa ferida e, ao que parece, ninguém vai colocar. As empresas estendem seus tentáculos para todos os lados. O YouTube, que serve para que pessoas comuns como eu e você (ou seja, qualquer zé ruela) fale o que absolutamente der na telha, com total liberdade, já foi cooptado. Hoje, é mais um braço do marketing.
Pode-se argumentar que o mercado editorial está indo para o buraco, que os autores precisam de divulgação e blá blá blá, mas no final do dia é uma opinião que está sendo encomendada e ponto final. Um mínimo de independência e sinceridade seria aí desejável. Aliás, é isso o que a internet nos possibilita.
Um dos canais de booktubers tem um tom amargo em relação a isso. Fui na página dele e, na busca do YouTube, filtrei os resultados por "vídeos mais antigos". Aí consegui ver os primeiros vídeos do canal. Nele, uma moça meio ansiosa, de olhos esbugalhados, falando com muita sinceridade e bastante sarcasmo (um delicioso sarcasmo auto-depreciativo) dos livros que leu, no seu quarto totalmente desarrumado e com uma câmera amadora. O verdadeiro espírito do YouTube (ou do que ele deveria ser).
Nos vídeos mais recentes, outro cenário. Iluminação profissional, o logo bonitinho (com musiquinha de pianinho tocando), dicção perfeita, tudo muito bem arrumado e certinho. Como diz o velho ditado: "por fora, bela viola". Pois é, enquanto o formato se profissionaliza, a opinião é vendida na bacia das almas. Por verdadeiras migalhas, opiniões são vendidas nestes canais.
Aliás, este é um problema geral das redes sociais, do YouTube e da internet como um todo. Ele virou um grande "passar o chapéu", em que cada um se vira como pode, produzindo o conteúdo, enquanto o YouTube não faz absolutamente nada (além de existir) e abocanha toda a grana (na verdade, não ele, mas seus acionistas, que são mais vagabundos ainda). Aquele que realmente coloca a cara na tela, fica com a menor parte.
Mas e aí, isso afinal é bom ou ruim?
Bom, eu acho que é bom. No final das contas, mais gente está se interessando em ler por conta desses canais. A estratégia de divulgação, usando de bastante informalidade e do carisma das divulgadoras, é algo digno de nota. Mas bem que poderia ter um pouco mais de independência, não é mesmo?
Mas, ao mesmo tempo, precisamos pagar nossas contas, então também não critico. Bem, na verdade critico, mas acho que deu pra entender. Confesso que fico puto da vida quando vejo uma delas estendendo o livrinho para a câmera, sabendo que aquilo é mais do que feito com promiscuidade em relação ao autor/editora, ou então que é literalmente pago, e tenho vontade de simplesmente parar de ver aquilo.
O ideal seria uma estrutura do tipo "Patreon" (ou qualquer outro financiamento coletivo), para que os booktubers mandem os autores catar coquinhos e consigam independência para fazer suas resenhas com toda a tranquilidade. Acho que, na verdade, alguns conseguem fazer isso, mas ainda assim predomina a opinião encomendada mesmo.
É decepcionante, com o advento da internet (e com toda a liberdade que ela proporciona), ver que opiniões estão sendo pagas para serem emitidas. Talvez eu seja muito ingênuo ou me preocupe ainda com esse detalhe bobo chamado "isenção" ou "integridade", mas sei lá, estas ideias já ultrapassadas aparentemente ainda tem (e sempre terão) sua vez e cabe então mencioná-las e cobrar para que elas sejam postas em prática.
Não quero me gabar nem nada, mas aqui é a minha opinião sincera mesmo, claro que às vezes brigo com as palavras ou então não tenho recursos teóricos ou intelectuais para fazer uma resenha justa ou merecida de alguma coisa, mas tento na medida do possível (e sem fingimentos e desonestidades) passar o que senti e percebi lendo ou vendo algo. Prefiro mais uma opinião tosca, porém sincera, do que uma opinião "qualificada" (e bota aspas nisso...), mas sem um pingo de sinceridade.
E o que tem também de gente chupinhando resenha alheia, vou te contar... acabei de ver as resenhas de um disco aí de uma banda famosa, e duas delas (no YouTube) foram copiadas de resenhas em inglês, de sites especializados. É uma vergonha, pessoal simplesmente tá tendo que se matar pra manter conteúdo e não tá tendo como, então tão chupinhando mesmo na cara dura para manter os seus conteúdos vivos, pois eles acabaram virando um meio de vida.
Isso sem falar os que ficam fazendo jogadinhas e usando termos vazios para tentar passar um ar de autoridade que eles não tem e nunca vão ter. Sempre com aquele tom arrogante e superior, como que para dizer que eles são qualificados para dizerem se algo é bom ou ruim. Ah, menos aí, cidadão. Abaixa a bola. 10 mil críticos afogados debaixo do mar não valem um mísero artista (e um artista ruim, ainda). O que vale é a experiência estética verdadeira e genuína, não essa pretensão detestável, que todo crítico tem.
Veredicto final e demais considerações
Bem, no final das contas, é bacana ficar de olho nessas booktubers e nas estratégias de divulgação delas, algumas muito bem pensadas e bem sucedidas. Mesmo com as críticas, é um trabalho que merece ser apoiado, não acho que é uma grande dilema ético, nem nada disso, só acho que deveria haver mais respeito e independência nas opiniões próprias. Se depender de mim, tem todo o meu apoio.
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