1808, livro de Laurentino Gomes

Acabei de terminar este livro e gostaria de compartilhar aí algumas impressões rápidas sobre ele. É um livro que fala sobre a vinda da família real ao Brasil no ano do título, ou seja, 1808. Há mais de duzentos anos os portugueses vieram aqui e modificaram a nossa história, instalando-se com todo o seu séquito de seguidores, puxa-sacos e todo o aparato administrativo. Aos detalhes.

Livro de não ficção e bastante documental

Pois é, não sei se "documental" seria a palavra certa, pois na verdade ele não é tão carregado de documentos assim. Na verdade, só cita alguns deles, mas que é o suficiente para dar um ar de "documentabilidade" (se é que este termo existe) ao trabalho. Acho que é algo essencial, considerando que se trata de um trabalho de caráter histórico, então nada de mais aqui também.

Antes de ler, eu tava achando que seria um livro mais sobre uma narrativa, romanceando as coisas que aconteceram no Brasil e tal, mas não, na verdade ele se atém bem mais mesmo a um caráter factual. O livro, então, não fica falando que fulano ou cicrano acordou no Rio de Janeiro, olhou os pássaros, etc etc (ou seja, aquele tipo de narrativa cansada e arrastada, cheia de descrições), ele mais pega os documentos e fontes mesmo (geralmente trabalhos de outros historiadores) e vai contando pra você o que ele leu.

Então seria basicamente isso, um trabalho de pesquisa, mais na linha jornalística mesmo, com base em fontes históricas. Ficou bem interessante! Se uma coisa precisa ser dita, é que jornalista sabe escrever. O texto vai tranquilo, nada impede a sua leitura ou o atrapalha com detalhes irrelevantes ou com firulas de estilo que mais atrapalham do que ajudam.

Achei, então, um livro bastante digno, uma leitura muito fácil e fluida, contando alguns fatos interessantes sobre este importante momento histórico.

O livro é bem sucedido em explicar a importância de 1808

Geralmente, só sabemos deste fato muito superficialmente, porque a escola em algum momento nos ensinou. Parece apenas uma passagem como todas as outras, mais uma entre muitos fatos aí da nossa história e que grudam na nossa memória por um motivo ou por outro. É um pouco difícil criar um cenário mais preciso (ou, pelo menos, mais "vivo", digamos assim), da época relatada, e acho que aqui o livro é muito bem sucedido em fazer isso.

O livro, então, aproxima você dos fatos narrados, e consegue também, ao mesmo tempo, explicar porque estes fatos são tão importantes. Fica claro como as mudanças profundas foram alterando o país em função da vinda da família real, e isso é feito tanto pelo levantamento de números (por exemplo, alguns dados econômicos que se alteraram no momento), ou então por relatos sobre as mudanças mesmo na vida diária.

Então, além de saciarmos nossa curiosidade histórica sobre este momento passado do Brasil, conseguimos entender um pouco mais sobre nós mesmos, sobre o que é essa incógnita que forma o nosso país, e portanto ter mais algumas pistas sobre tudo isso. É uma leitura, até certo ponto, muito instrutiva.

Uma pitada de sal para o livro

Quando eu digo "uma pitada de sal", roubo a expressão da língua inglesa, que quando diz que vai ler algo com desconfiança, diz que vai ler com uma "pitada de sal" (na verdade, acho que a expressão é um "grão de sal", ou algo assim). Pois é, a ideia é de que o livro deve ser visto com uma certa desconfiança, mas também não muita, a ponto de atrapalhar o livro.

E realmente, o livro se esforça bastante em apresentar as fontes daquilo que está relatando. Toda hora ele põe palavras na boca de outros historiadores, do tipo "segundo Fulano", ou "de acordo com Cicrano", o que dá algum ar de autoridade ou legitimidade para o que se lê. Então, acredito que os dados levantados sejam mais ou menos corretos, e podem ser tomados como factíveis de uma maneira geral. 

Então, de toda a forma (a não ser que você seja alguém muito detalhista, ou um acadêmico da área), tudo pode ser tomado pelo seu valor de face mesmo, e tá tudo tranquilo.

Claro, o livro é povoado por alguns juízos de valor, pode-se acusar a perspectiva de "eurocêntrica", ou outra pataquada qualquer, mas estamos em 2020, vivemos uma pandemia (se você me lê em outra época, espero que você já esteja lendo sobre pandemias em livros de história), então estamos todos cansados e não vamos, é claro, exagerar na problematização. Até porque, na verdade, todas estas imprudências (ou safadezas mesmo) do jornalista, me parecem bastante perdoáveis. 

Trata-se, então, de uma leitura tranquila, e bastante gostosa até, eu não vou mentir se eu não dissesse que me deu vontade de ler os outros livros desse cara. Realmente, o modo como o assunto foi tratado é bem instigante.

O choro dos historiadores é livre

Pois é, é claro que o historiador vai querer defender sua profissão, e chorar porque ele pesquisa por anos e só consegue meia dúzia de citações em algum lugar qualquer (provavelmente uma revista acadêmica para a qual ninguém liga), enquanto um jornalista faz uma pesquisa muito menos rigorosa, sem grandes metodologias rebuscadas, e lota as bancas e livrarias (e ganha muito dinheiro com isso, é claro). Afinal, o livro é um best seller.

Eu acho que, sobre isso, o ponto é o seguinte: historiador, aprenda a escrever! O fato é que, tirando meia dúzia de iluminados, ninguém suporta a linguagem acadêmica, que parece que veio do fundo de alguma catacumba, escrita pelo mais empoeirado dos seres. A escrita acadêmica chega a ser sombria, de tão viciada, pouco atraente, tão burocrática que é. Suspeito que nem mesmo os próprios acadêmicos suportam aquilo.

Imaginar que alguém vai ler um texto com todos os traquejos acadêmicos, no melhor estilo "tese de mestrado", é simplesmente viver fora da realidade. É pavoroso ver o quão pouco acessível (e, na verdade, muito desinteressante), é esse tipo de texto. Ele tem sua função, são pesquisas importantes, mas eles são só isso mesmo, servem para as próprias pessoas da área trocarem figurinhas.

Então, torna-se absolutamente necessário que jornalistas (que escrevem para serem lidos por gente "normal", para atrair a leitura, e não tem vergonha nenhuma disso), bem como outros divulgadores, vão lá e consigam contar para o público aquilo que, de outra forma, jamais seria lido. Então eu acho completamente válido (ou até iria além, diria que é até essencial).

Fora que o mundo acadêmico tem um vício da especificidade, que é um troço incrível. Eu, por exemplo, tinha ficado curioso sobre o sistema de correios da época do Brasil Colônia. E é simplesmente impossível encontrar alguma coisa que trate o assunto de maneira mais geral. Sempre você acha tese do tipo: "o sistema de correios da província de sei lá onde entre 1768-1779", ou algo assim, ou seja, uma coisa ultra específica que não tem interesse nenhum. É muito difícil achar um panorama geral, sobre qualquer assunto.

Então é importante também que os trabalhos nos deem uma visão do todo, porque ninguém (exceto um pesquisador, ou talvez um autista) está interessado numa coisa extremamente localizada e muito específica, e isso infelizmente é muito comum no meio acadêmico. São certamente trabalhos importantes, mas alguns são tão específicos, que chega quase ao ponto do ridículo. Aqui, ele nos dá uma visão mais geral.

Fica claro como livros didáticos são chatos

Lendo este livro, me deu a impressão de que é este tipo de leitura que deveria atrair o aluno, e não aquela coisa já viciada dos livros didáticos. Os livros didáticos tratam o aluno de uma maneira tão imbecil, que acho que ninguém consegue levar a sério aquilo, já de cara desmoralizando o assunto. E torna tudo algo muito pouco atraente.

O livro aqui, no estilo de escrita, não faz nada de mais, mas esse é justamente o ponto dele, ele "não faz" aquilo que os outros fazem, ou seja, ficam enrolando, simplificando demais (ou complicando demais), tentando inventar jeitos mirabolantes de atrair a atenção (que, na verdade, tem o efeito oposto), etc etc. Aqui, com uma narrativa simples e focada nos fatos, a leitura avança e consegue atrair.

Considero, então, um bom objeto de estudo para tentar entender o que pode atrair uma pessoa para o assunto de história (ou, na verdade, qualquer outro assunto). O fato de ele ser um best seller, parece a mim mais um fato digno de elogios do que de deméritos. Muitos vão negar isso, mas apenas por pura vaidade, porque nada como bancar o gostosão e o superior, torcendo o nariz para o best seller (e se gabando de ler um texto inacessível em lugar disso).

Nota: 5/5

Vou meter logo a nota máxima nisso, pois considero um exemplo muito bom de livro que respeita o leitor, ou seja, que trata ele como alguém que precisa ter acesso ao texto, e que facilita pra você nesse sentido em vez de chamá-lo de burro. Porque muitos textos mais inacessíveis e obtusos são isso, eles meio que fazem um labirinto para o leitor (geralmente cansando-o no processo), para depois meio que jogar na sua cara: "aí, tá vendo, você não estava preparado para isso"...

Aqui não tem esse problema, o autor não tem problema ou pudor algum em facilitar o caminho pra você, o que é na verdade a função última de um jornalista. Então ele emprega aqui toda a sua experiência em redações, lidando com reportagens, com todos os traquejos específicos e que conseguem atrair um leitor normal. 

Além disso tudo, são fatos interessantes, fala que Dom João fez isso, Dom João fez aquilo, etc. Sim, ele era um gordinho comedor de coxinhas (segundo as fontes do livro), mas ele consegue temperar esses fatos pitorescos com uma visão bastante interessante dessa figura, mostrando que também ele foi um ser astuto que enganou Napoleão. Então o livro joga (inteligentemente, ao meu ver) com essa tensão (e com um "quê" de sensacionalismo, mas acho que num nível bem aceitável).

E, principalmente, mostra como trabalhos de história, ou de áreas mais fechadas academicamente, precisam se abrir um pouco, formar um texto mais arejado, que não pise na cara do leitor, e que trate-o com carinho e não como um inimigo que precisa brigar com o texto. Aqui, as informações são interessantes e bem pesquisadas, mas o tratamento é fluido e acessível. Algo que deveria ser mais incorporado, em outros trabalhos do gênero.

Comentários