Gambito da Rainha, série da Netflix

Ok, vamos lá resenhar essa série rapidamente. O sono me consome, mas ou eu faço isso agora, ou não faço nunca.

(Atenção! Spoilers em todo o texto).

Dizem as convenções do esporte (ou jogo, se você preferir) que o nome correto seria "Gambito da Dama". Pois bem, aqui ficou rainha mesmo, e isso na verdade não influencia a série em absolutamente nada (que continua com o nome correto em inglês, referente à abertura), então sacode a poeira e esquece isso.

Série sobre xadrez, a menina é talentosa, ganha de todo mundo, etc e tal. Série boa? Olha, até é. Vamos aos detalhes.

Tabuleiros no teto e tranquilizantes

Pois é, a menina tem um bom arco dramático e tal, ela sai da condição de órfã, passa por uns perrengues, e aí começa a dominar o mundo do xadrez. Improvável que no meio de um torneio todo mundo aplauda (na verdade, qualquer tossezinha de leve vai fazer você ser quase assassinado), mas enfim: licenças poéticas. Os clichês do xadrez dominam a cena, o cara deita o rei (prática, na verdade, mais lendária que verdadeira, e não realizada no xadrez profissional), ela vê tabuleiros no teto no melhor estilo Russell Crowe em "Uma Mente Brilhante", e por aí vai.

Mas o jogo até que é tratado com uma sobriedade e respeito necessários, o que é algo raro para séries e filmes sobre o assunto. Mesmo a cinebiografia do lendário Bobby Fischer (interpretado por um Tobey Maguire com cara de louco), é repleta de erros crassos, ou seja, a fama nesse tipo de assunto não é boa. Aqui, tiveram a vergonha na cara de contratar consultores de xadrez (parece que até o próprio Garry Kasparov, ex-campeão mundial russo, foi um dos que deram consultoria à série), então a coisa aqui foi bem revisada. 

Então, trata-se de uma série que respeita bem este universo do xadrez, tomando algumas licenças poéticas bastante aceitáveis, para fins dramáticos.

A protagonista é uma drogadinha, que de repente decide não ser mais drogada, ganha o torneio mundial, fim.

Um dos super poderes dela é enxergar tabuleiros no teto quando toma os seus famosos tranquilizantes. É tipo o espinafre do Popeye, só que em vez de ficar fortona, ela vê tabuleiros (e sempre no teto, não nos esqueçamos). Mas é uma cena que funciona bem visualmente, e ainda que pareça com o outro filme já citado, geralmente são boas cenas.

A atriz gosta de trançar as mãozinhas sobre o tabuleiro

E também tem isso. A atriz, que todos reverenciaram como a maior interpretação dos últimos tempos (pessoal também exagera), e tem o grande mérito de ter uns olhão lá que ficam bem tensos na tela, sempre faz essa pose, o que começa a cansar depois de um tempo. Existem outras poses para se fazer na frente de um tabuleiro. Tirou o realismo, ela ficou parecendo uma boneca e não um ser humano.

O impacto visual desta atriz, no entanto, é algo bem chamativo. Ela é esquisita e bonita ao mesmo tempo, o suficiente para seu olho grudar na tela. E a interpretação tem seus pulos, ela realmente é muito boa. Mas ficou um pouco caricata, na minha opinião. E do meio pro final, começa a ficar "bicuda", o que realmente eu não entendi.

A série tem várias cenas silenciosas, ou com momentos banais (tipo, pegando algo na cozinha, essas coisas), o que dá um "respiro" legal pra ela, permite que você absorva as cenas com calma e tenha tempo pra refletir sobre tudo. Isso eu gostei bastante, a série é bem "espaçada", não fica socando diálogo atrás de diálogo em você, e isso deu um ritmo legal pra ela.

O final é previsível e pesa umas três toneladas de açúcar, e tem mais clichês do que um ser humano saudável consegue suportar, mas de alguma maneira funciona, e não chega a comprometer tanto a qualidade da série. Na verdade, compromete bastante, mas a série no geral é bem filmada e bem amarrada, no final a coisa acontece e você sai satisfeito. E ela não deixa pontas soltas, fica tudo bem amarradinho, ainda que bem até demais.

Borgov, a máquina soviética

Um dos clichês desta série, e que aqui é explorada bastante, é a do "soviético frio", naquele estilo racional seco, como se fosse uma máquina e não um ser humano. A enxadrista Elizabeth Harmon seria o contraponto americano a isso, com o seu "individualismo" e blá blá blá. 

Bem, aí depois ainda tem o clichê do soviético malvadão ficando bonzinho no final e cumprimentando o americano vencedor, o que deu pra série um tom meio "Rocky IV", como naquela cena em que Stallone vence e todos os soviéticos aplaudem. Mesmo as mais frias máquinas têm coração.

Eu falo assim, mas não chega a ser ruim, só é um pouco trivial, e até que consegue se desviar de algo muito tosco. Mas que é um baita clichêzão, isso é sem dúvidas. E o nome "Borgov" é muito bom, melhor nome para seu vilão soviético típico. 

Aí Borgov é este sujeito sem alma, que joga xadrez de maneira impiedosa, mas que no final cede aos ímpetos juvenis e ao talento da protagonista. O seu dia está salvo, a América segue no controle.

Série boa, porém final previsível

O veredicto final que eu dou é o 4/5 de sempre. Apesar das críticas, é uma série muito bem filmada, tem boas cenas, os personagens são bem desenvolvidos (na medida do possível), a fotografia é bem chamativa, etc. Os clichês abundam aos montes, mas é para isso que eles existem, e podem ser perdoáveis. Gostei mais dos primeiros episódios, principalmente dela no orfanato, acho que lá a série tem seu melhor momento.

Então é isto, 4/5 para o Gambito da Rainha.

Vi muita gente dizendo que é a melhor série que já assistiram na vida, etc e tal. É um evidente exagero, está muito longe disso. Mas é uma série bem competente, às vezes até empolgante, muito bem trabalhada e tem um ótimo respeito pelo tema xadrez. Vale a pena dar uma olhada.

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