A Náusea, de Jean-Paul Sartre
Pois é, janeiro não tenho marcado muita presença aí, mas vamos lá. Já faz algum tempo que eu li esse livro (algumas semanas, na verdade), e fugi um pouco aqui da minha regra, que é postar logo de cara a resenha/crítica/opinião, para tentar captar a opinião "fresca" da coisa. A questão é que me senti intimidado por essa obra, de teor altamente filosófico e, poderia se dizer, pessimista. Aos detalhes.
Um dos melhores livros que eu já li
É isso mesmo, e esse talvez seja o fator que mais me levou a adiar este texto. E por quê? Bem, porque é muito difícil falar que um tal livro é o melhor que você já leu na vida, mas ao mesmo tempo não ter muito o que falar dele. Soa como trapaça, incompetência textual, ou simplesmente medo, muito medo.
Bem, muito medo é exagero, o texto não está apontando a arma pra minha cara, ou coisa do tipo, mas de fato é uma sensação bem intimidadora. E aí talvez seja uma primeira impressão deste livro do Sartre, que é a sua capacidade de intimidar. Mas é uma intimidação, por mais contraditório que isso soe, positiva, e que acaba agradando na leitura. De fato, ficamos "nauseados" e ele consegue passar realmente esta sensação para o leitor (pelo menos, pra mim passou).
"Náusea" não é a melhor palavra, no entanto. O protagonista alega sentir uma náusea fundamental, basilar, ou seja, a própria existência em si das coisas o deixa nauseado. Isso é trabalhado com maestria pelo autor, um filósofo conhecido, mas que aqui mostra também suas habilidades literárias. É um livro filosófico, mas não uma aulinha, então pode ir tranquilo nele.
Para mim, a sensação que eu mais comparo (com a do protagonista) não é náusea, mas dor. O que ele sente como náusea eu sinto como uma angústia muito forte no peito. Depressão clínica? Bem, não sei, e não cabe aqui fazer avaliações médicas. O fato é que o livro do Sartre dá a essa sensação peculiar uma dignidade filosófica e literária muito grande.
O protagonista é um solitário estranhão
Se nós fôssemos avaliar quem é o protagonista (de nome Antoine Roquentin; provavelmente lido "Roquetã", pois estamos na terra dos comedores de queijo), veríamos que ele seria um cara bem excêntrico, provavelmente um quase autista. Mas como já dito acima, o autor consegue dar a ele uma dignidade, um charme, que justifica toda a sua postura. É um esquisitão perdedor, mas que justifica sua "perdição", por assim dizer, e que fascina.
A mente esquisita, com uma visão única, peculiar, e altamente pessimista - praticamente não vê valor em nada na vida - é aqui mostrada de maneira escancarada, e somos convidados a entrar neste modo de ver o mundo. O convite é muito bem aceito, e apesar do tema árido, o autor nos joga tapetes vermelhos. Entramos aí de cabeça, então, num modo muito diferente de ver as coisas.
Sei que muito do que está no livro tem a ver com a filosofia do cara (o Sartre), que é o existencialismo, mas acho que isso são detalhes técnicos que ficam para os entendedores da área. Talvez exista um pouco aqui de fenomenologia também, ou seja, toda essa coisa francesa-filosófica aí do início do século XX. Tecnicalidades que não atrapalham em nada o livro (e não precisam ser conhecidas para ele ser apreciado; pelo contrário, o próprio livro introduz muito bem estes assuntos, de maneira natural).
Então aí temos o Antoine Roquentin, ele é um solitário que tenta escrever um livro, a vida do cara do livro (que ele está pesquisando) vai se cruzando com a vida dele, mas depois os dois se separam, e começam a ver que um não tem nada a ver com o outro. Alguns séculos separam a ambos, e esta pesquisa do Roquentin fica como um pano de fundo (que, depois, é abandonado).
Tudo é tratado de maneira bem singela e com um ritmo muito bom. A leitura, particularmente, me atraiu, fui querendo ler mais e mais. Teve gente que se embolou com o estilo muito filosófico e introspectivo, mas eu gostei. Foi bem saboroso de ler.
O auto-didata é um dos melhores personagens do livro
Neste livro, o protagonista interage com um tal de "auto-didata" (assim chamado), um personagem sem nome que fica o dia inteiro numa biblioteca, pesquisando fatos aleatórios apenas por gosto pessoal. Este personagem é uma crítica à erudição vazia, e é um dos grandes alívios cômicos do livro. Toda vez que ele entre em cena, algo interessante acontece. E, ao final, ele proporciona interessantes reviravoltas.
Tem também a antiga paixão de Roquentin, que fica como uma sombra ao longo do livro. O seu retorno mais para o final dele, proporciona alguns dos melhores (e mais bizarros) diálogos da história. A reflexão proposta é pesada, faz a gente nos ver no abismo sem fundo da existência (parece que essa é a ideia mesmo), então não são exatamente sensações muito agradáveis a que ele nos leva, mas de alguma maneira ele faz isso acontecer de uma maneira muito interessante (e, diria, quase empolgante).
Enfim, poucas palavras para uma grande obra, por isso quis adiar tanto este texto aqui (que está saindo bastante forçosamente, confesso), pois nada do que eu disser aqui vai fazer justiça a este livro. Gostei bastante e está aqui fortemente recomendado, principalmente se você curte uma boa e velha filosofia e pessimismo.
Nota para o livro: 5/5
Pois é, não poderia ser menos que isso. Realmente é uma obra-prima, que expõe os seus pontos de vista e essa concepção de mundo "existencialista" com bastante habilidade e vigor. É um livro bem marcante, algo feio e bruto, mas que vale muito a pena ler. Acho que é uma daquelas obras capaz de nos modificarem, é bastante tocante na verdade e traz uma melancolia saudável (cheia de reflexão). Mas não acho que seja um livro para todos, alguns podem achar simplesmente maçante. Eu adorei e recomendo.
Comentários
Postar um comentário