Grande Sertão: Veredas, de João Guimarães Rosa

Finalmente terminei o calhamaço de João Guimarães Rosa, o famosíssimo Grande Sertão: Veredas. Ou deveria dizer: calhamaçudo? Calhamâncias? Nas ribanceiras! Oxi, boi brabo... e pelos buritizais desta leitura, devo dizer que até que gostei, com algumas reservas. Vamos à crítica, resenha, cagação de regra, ou seja lá do que você queira chamar isso...

Livro bom, com um ambiente único

E depois de terminar a leitura, chega a hora de ler o pessoal "explicando a piada", ou seja, dizendo para você porque o livro deve ser achado bom, e porque você seria burro se achasse o contrário. Pois bem, já digo que este não é bem o objetivo deste texto. Não tenho nenhuma pretensão literária ou crítica para o que vou dizer. É só para compartilhar minhas impressões mesmo.

E o fato é que é uma leitura muito difícil, mas não extremamente difícil. O negócio é você entender o que eu autor está fazendo, que é seguir um ritmo, inventar uma linguagem, e não tentar entender muito o que ele exatamente quer dizer (pois aí é que o leitor quebra a cara). Tem que se deixar mais se guiar pelo sentido geral e pelas sensações passadas, acredito.

O problema é que certas expressões e neologismos soam completamente aleatórios e desnecessários. Sei que o crítico fodão Zezinho da Silva vai dizer que "pipipi popopó, nada aqui é gratuito, Rosa era um gênio, tal e tal", mas a questão é que, para um mero mortal (feito eu e você), soa sim aleatório e gratuito. Mas isso não quer dizer que é exatamente ruim (mas nem de longe), e que não seja uma leitura agradável. Na verdade, é.

E sou super favorável a praticamente qualquer coisa que vá numa linha mais "experimental", digamos, mesmo que o resultado não seja tão bom quanto poderia ser. Depois que o cara vai lá e mete o louco, fazendo sua proposta mais fora do convencional, chega o pessoal mais com a cabeça no lugar depois, e aproveita o potencial criativo daquilo, talvez fazendo algo mais palatável. Acho que é um pouco o caso aqui.

O Guimarães Rosa visto como autor experimental, de vanguarda, é simplesmente sensacional. Só que se você olha ele como um autor convencional (que ele não é), os defeitos do livro abundam. História magra, repetitiva, ritmo arrastado, estilo muito sobressaltado (atrapalhando o aproveitamento do conteúdo ou da história), etc etc. Poderia até se dizer que, neste caso, o "estilo é o conteúdo", mas a grande verdade é que fica um ruído, o autor pesa a mão e aparece demais, por conta do seu estilo peculiar. Se isso é defeito, ou qualidade, já não sei...

Linguajar seco e árido

"Seco" e "árido" acho que são a mesma coisa, mas como preciso de um intertítulo com alguma mínima extensão, vou deixar assim (e até para ressaltar a ideia). A linguagem confusa dele pode ser entendida como uma metáfora da aridez do sertão? É uma mistura interessante de linguagem poética, evocativa, com uma linguagem bruta, hermética, às vezes até difícil de entender.

Li um comentário por aí dando uma boa pista para entender essa linguagem amalucada do Guimarães: seria o matuto tentando impressionar o cara da cidade, com uma linguagem complicada (e falhando nisso). Talvez seja uma espécie de pastiche, ou paródia disso. E realmente faz sentido, porque o próprio narrador simula falar com alguém mais instruído, da cidade, o que fica claro em vários momentos.

Então a linguagem utilizada (que é, na verdade, o grande destaque do livro, formando o que talvez seja um livro "metalinguístico") tem todos estes aspectos, ela é bruta, mas ao mesmo tempo poética, é difícil (às vezes impossível de compreender), é desagradável, às vezes é bonita... então o autor vai jogando com isso, de maneira bem habilidosa, até eu diria.

Só que muitos pesquisadores do Guimarães Rosa dizem: "ah, essa expressão ele retirou do alemão, do russo", etc. Ok, só que eu lá falo russo? Então de que me adianta? O sentido da expressão fica perdido pra mim. É, então, um belo exercício técnico, mas qual o efeito real disso no leitor? É isso o que eu me pergunto...

Acredito, então, que este autor dependa muito do humor e da disposição do leitor, eu sinto que alguns simplesmente iriam adorar de paixão este estilo dele. Mas eu não sei, para mim sempre fica a impressão de que o autor está "batendo a carteira" do leitor, vendendo uma espécie de falsa qualidade. Como se eu tivesse que me impressionar com os exercícios estilísticos dele, e assim automaticamente gostar muito dele (e chamá-lo de gênio). Fica uma sensação de que estou sendo enganado.

Ou seja, não sei se me envolvi tanto assim quanto deveria (com a proposta do livro), e me pergunto o quão competente o Rosa realmente era para fazer isso. Porque, de fato, ele era muito desenvolto em todas as suas esquisitices de estilo, neologismos e outras construções, mas a questão é, isso realmente servia para alguma coisa? O que isso causa no leitor? O quão bem sucedido isto é para envolvê-lo na história? Em mim, pelo menos, os efeitos foram bastante dúbios e variáveis...

Jagunço vai pra lá, jagunço vai pra cá

A história do livro até que é interessante e tem muitas reviravoltas, além de bastante violência e emoção. Destaco um dos momentos finais do livro, em que eu acredito que toda a linguagem embolada dele é bem sucedida para passar toda a tensão e confusão do momento, com o uso de onomatopeias e palavras com sonoridade bem peculiar. 

Só que, no geral, a narrativa é arrastada, fica sempre a sensação de que não está acontecendo nada (ok, não sempre), eles ficam lá perdidos no meio do sertão só se movendo de um lugar para outro, e é isso aí. Não é ruim (na verdade, é até bom), mas é um pouco entediante, e a história (ainda que seja até boa), soa um tanto magra.

Claro que o estilo do autor, todo poético e tal, é o que manda aqui, mas mesmo assim um historinha melhor faria bem para o livro. A virada final do roteiro é bonita, e é bacana como o autor espalha dicas sutis ao longo do texto, criando uma tensão em torno disso. É um bom equilíbrio entre previsibilidade (pois meio que você vai sacando isso, ao longo do livro) e surpresa. Acho que ele trabalhou bem este ponto.

O ambiente de fantasia criado no sertão, com nomes bizarros de localidades, de rios, é bem bacana, isso vai entrando na sua cabeça e vai te colocando num outro lugar mágico, que é ao mesmo tempo o Brasil do interior e outro lugar que não existe, fora do tempo e do espaço. O sertão do Guimarães é um lugar lúdico, fantástico, inexistente e fascinante, em parte por conta desse jogo de nomes que ele faz.

A "metafísica" que eu não vi no livro

Eu vi muita gente aí dizendo, inclusive o crítico fodão Antonio Cândido, que este seria um livro "metafísico", mas eu realmente não vi isso. Bom, depende do que o cara quer dizer com metafísico. Pra mim, tirando o fato de ele falar no diabo aqui e ali, não vi metafísica nenhuma. Ficou mais no ar um certo ambiente de esoterismo, de espiritualidade, mas mais como um pano de fundo, como algo vago.

Então este seria um livro "metafísico", seja lá o que isso queira dizer, e se você conseguiu ver isso no livro, muito bem, que assim seja.

A leitura no geral foi bem aproveitável

Pois é, na verdade eu falo assim mas sou um fã completo de Guimarães, eu na verdade já havia lido um pouco dele na juventude e, naquela época, eu era bem mais entusiasta da sua literatura única. Agora, mais envelhecido, sou como o jagunço Riobaldo relembrando das suas peripécias, e já um pouco mais calejado, coloco em dúvida a efetividade de sua literatura.

Porque uma coisa é o cara ser experimental, inovador. Até aí ok. Qualquer um pode ser. Mas funciona? Este é que é o ponto.

Eu acho até que sim, o livro é bom, tem vários pontos de interesse, e é no geral bem construído. Na minha opinião (que não vale um centavo), há uma certa irregularidade, alguns momentos são forçados e o exercício de estilo (que ele não alivia em nenhum momento), soa gratuito em várias passagens (além de aleatórios). Mas faz parte, não chega a prejudicar o livro, e diria até que lhe dá um certo charme.

Este é um daqueles livros que não dá pra ficar sem ler. Um clássico nacional obrigatório, nem que seja pra falar mal (se você tiver coragem de contrariar o establishment acadêmico que se formou em torno dele). E está aí, cumpri com esta minha obrigação (e com prazer, sem dúvida alguma).

E não é possível que só eu tenha notado isso, mas ele claramente enfia o Zé Bebelo de volta no final, só para não ficar uma ponta solta. Claramente o autor esqueceu disso e tentou consertar no final. Mas enfim... quem somos nós para questionar o grande deus da literatura nacional (mas, na verdade, isso não fica ruim). Deu um certo ar de final apressado, mas apenas um ar, e tá tudo bem.

Nota: 4/5

É isso aí, como você já teve ter notado, vai aí a nota isentona tradicional, com ela tento expressar que gostei bastante do livro (e realmente gostei), é uma baita obra que vale a pena você ler. Mas eu mentiria se dissesse que gostei muito (assim, muitão), eu gostei só e ponto, em alguns momentos eu li e tive vontade de dar um tiro na cabeça. 

É um livro que demanda de você um envolvimento, uma entrega (em que você confia no autor enquanto produtor de todo este ambiente, esta atmosfera criada pela linguagem, etc). Neste momento, talvez eu não esteja com esta disposição, mas clássicos são clássicos (e vice-versa), então pode ser que em outro momento da minha vida, numa releitura, eu consiga este efeito desejado.

Um livro recomendável, mas que exige paciência e dedicação do leitor, bem como "mente aberta", para entrar na sua proposta.

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