Quincas Borba, de Machado de Assis

Esta é mais uma daquelas resenhas que eu fico adiando indefinidamente, pois não me sinto à altura do material resenhado, então fica sempre o receio de estragar (ou não fazer jus) à obra. Então vou na cara e coragem mesmo, falar o que vier à cabeça deste livro que eu li (e que eu, a propósito, adorei). Sem suspenses ou delongas, vamos lá.

Livro excelente do mestre Machado de Assis

Adoro Machado de Assis, e realmente não entendo quando falam que seria uma leitura difícil, ou complicada, ou coisa que seja. É, na verdade, uma leitura muito agradável, divertida e bem feita. Não creio que haja grandes dificuldades na leitura dele, talvez este mito tenha sido criado pelo uso extenso do autor em escolas, com alunos que ainda não desenvolveram grandes hábitos de leitura.

Bom, aqui temos um "spin-off" (digamos assim) do outro livro dele, que é o "Memórias Póstumas de Brás Cubas". Quincas Borba era um personagem daquele outro livro e aqui ganha uma obra apenas para ele. Bem, mais ou menos... não vou adiantar muito, pois quero aqui evitar os spoilers.

Quincas Borba era um filósofo que aparecia lá nas Memórias Póstumas, e aqui ele retorna em toda a sua glória. Machado era um escritor habilidoso, sofisticado e irônico, eu fico sempre impressionado como ele conseguia (aparentemente sem esforço) traçar a história de maneira envolvente e elaborada, sem que isso fique chato ou complicado. É uma escrita elegante, limpa, e a história vai se desenrolando de maneira interessante e engajante.

Os personagens são quase todos interessantes, todos tem o seu momento de "brilhar" no livro e todos chamam a atenção por algum aspecto. Já li por aí que os personagens seriam "rasos", o que considero uma grande besteira, o narrador aqui (que é quase um personagem a parte, ainda que não seja especificado quem seria ele) explora com bastante profundidade e precisão os psicológicos dos personagens. As suas motivações ocultas, as hipocrisias de cada um, fica tudo muito bem revelado quando o narrador onisciente entra na mente deles.

A ambientação do Rio de Janeiro do século XIX é maravilhosa, Machadão estava lá presente de corpo e alma, então temos uma imersão fidedigna com o que rolava realmente na época. Não é uma obra de época em que vemos uma reconstrução de um período imaginado, é uma obra "da época", o que é uma coisa totalmente diferente. É legal ver os personagens andando em cavalos, carruagens, como as coisas funcionavam na cidade na época, como era a imprensa, essas coisas.

A classe média hipócrita e superficial

Posso ser um pouco injusto e até exagerado, generalizar a "classe média brasileira" é quase sempre algo perigoso (e que nos leva a erros), mas digamos que o livro possui uma atualidade muito digna de nota. De fato, a classe média retratada no livro é muito parecida com a classe média atual, ou seja, é uma classe interesseira, superficial, falsamente culta e só interessada em subir na vida.

Isso é retratado muito bem ao longo do livro, diria até que é um dos seus temas principais. É, então, uma análise da vida de um bando de interesseiro da sociedade carioca, uma gente endinheirada vivendo de aparências. Rubião, que seria um novo rico, entra nesse mundo e vamos acompanhando a sua passagem por esse novo estrato social.

E a ironia machadiana! A ironia está em todos os cantos, todas as frases, todos os objetos. Há passagens fenomenais, em que o autor analisa até o banco em que os personagens estão sentando, e como isso contribuiria para uma situação irônica. Pode parecer exagerado eu assim falando, mas o autor faz isso de maneira habilidosa e atrativa, sem que fique forçado.

O livro é surpreendente e quebra suas expectativas o tempo todo. Os personagens são complexos, mas ao mesmo tempo são fáceis de serem sacados (talvez "multifacetados" seria a palavra), você tem um egocêntrico que só pensa em si mesmo (por exemplo), há a solteirona que já desistiu da vida, e muitos outros personagens. Mas o livro não cai no erro de fazer deles uma caricatura, então eles não são somente isso. É um livro de ótimos personagens, muito bem construídos.

A história tem um desenvolvimento que eu não pude antecipar. Tudo parecia se encaminhar para um outro caminho, e isso muda lá pelo meio do livro. Ao mesmo tempo, a virada no roteiro nos faz pensar se isso já não estava antes no texto, o que é algo bem intrigante. O livro, então, tem o efeito de nos deixar surpresos, mas ao mesmo tempo nos fazer pensar: será que isso já não estava ali antes? Trazendo assim uma sensação de estranha familiaridade.

Dona Fernanda, uma das personagens mais enigmáticas do livro

Pois é, essa personagem aparece lá pelo meio do livro, e eu achei ela bastante interessante, principalmente porque é muito difícil de sacar qual é a dela. Ela parece uma pessoa movida sem motivação, sem interesses pessoais, como se fosse uma espécie de "alívio de bondade" para o espinhoso e interesseiro mundo machadiano. Mas isso não casa com o resto, e dá a impressão de que o velho Machado aqui está sendo irônico novamente, em um outro nível.

Só que, relembrando a leitura, não me fica muito claro qual seria exatamente o interesse dela, então isso é algo que deixa o leitor intrigado. É, então, um livro que deixa em aberto vários perguntas, e uma delas é essa sobre a personagem Dona Fernanda. E, claro, Machado sempre coloca uma ponta de erotismo na coisa toda, o primo tem olhares lascivos para a prima, e as personagens mulheres jovens sempre estão sob uma tensão sexual o tempo todo (a personagem Sofia, por exemplo, carrega isso de maneira muito forte).

A escolha de nomes para o livro é impagável! Palha, Rubião, Carlos Maria, Dona Tonica... Machado escolhia os nomes a dedo, dando um efeito cômico e intrigante à leitura. Os sons dos nomes casam com as propostas dos personagens, de uma maneira jamais gratuita ou forçada. Realmente isso é muito bom.

Um livro fascinante, se é um dos melhores do Machado eu já não sei (não li todos dele), mas é um grande livro, de um dos nossos melhores autores.

Nota: 5/5

Este é um livro que eu mais fácil dou a nota por aqui, eu dou um 5/5 de olhos fechados e sem dó, não há qualquer dúvida sobre a qualidade dele. Machado não decepciona, produz uma obra complexa, gostosa de ler, com uma ironia deliciosa e com grandes observações sociais e psicológicas. A trama se desenrola sutilmente, habilmente, os personagens aparecem nos momentos adequados (e são muitos deles), nenhum deles parece inútil ou desnecessário, todos eles cumprem um papel na trama.

Ficar com papinho do tipo "realismo isso, realismo aquilo" é só diminuir a obra, temos aqui um grande livro que vai além de testes vestibulares ou provas escolares, e Machado era um autor que estava fora de qualquer classificação. Aqui, a obra permite várias leituras simultâneas, e são muitos os temas tratados, como loucura, ascensão social, falsidade, medo de envelhecer, e muitas outras coisas. Leitura mais do que recomendada.

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