Elize Matsunaga: era uma vez um crime (série documental da Netflix)

Ok, só gostaria de, muito rapidamente, compartilhar algumas impressões sobre esta série. Ela se trata basicamente de entrevistas com a própria Elize (que vem a ser a assassina do marido e que o esquartejou), com promotores, advogados e jornalistas, sobre este caso. Assassinato ocorrido em 2012, o cara (Marcos Matsunaga) era herdeiro da Yoki e estava a ponto de ser bilionário após negociações. À série então.

A mais normal parece ser a própria Elize

Com isso, é claro que não estou querendo diminuir os fatos graves que ela cometeu, mas o que me chama a atenção é a postura de todos os envolvidos. Advogados, jornalistas e demais personagens, parecem quase infantis quando se referem ao caso. O advogado de defesa, por exemplo, parece um adolescente falando e fala do caso como o seu brinquedinho, como se fosse um jogo. Risadas, palavras inadequadas, observações inconvenientes, tudo isso passa uma impressão muito ruim sobre todos (não só esse advogado, mas as demais pessoas também).

A Elize, sendo a assassina, fica mais na dela. Claro que, de acordo com sua versão, você tende a ficar comovido, e cabe ao telespectador acreditar nos fatos levantados ou não. Isso não vem ao caso, já que foi objeto de investigação, coisa e tal, e eles que resolvam lá. Quem sou eu para me colocar na posição de júri. Agora, que toda essa advogaiada aí desse mundo do Direito dá um certo nojo, isso dá!

Um dos advogados fala com a boca mole, parece até uma interpretação caricata de uma peça de teatro. Parece aqueles personagens mais patéticos do Machado de Assis, aqueles sujeitos detestáveis e pedantes. Ou, então, talvez um personagem obscuro de alguma obra do Kafka. Eu, hein.

Podem notar como todos eles falam esquisito. Não são pessoas naturais, normais. O juridiquês dominou o cérebro deles. A advogada de defesa, por exemplo, é uma perua também de fala perturbadora, se posiciona de um jeito todo estranho e até um pouco sinistro. Os promotores e o delegado sempre falam num tom impositivo, e parecem pouco preocupados com a aplicação da justiça e da moderação que isso implica.

O que a série parece mostrar é uma grande máquina de moer carne, seja o sistema jurídico, a imprensa, qualquer coisa. E, claro, a própria Elize, que matou o ex-marido e o esquartejou, sob circunstâncias não muito esclarecidas. Parece que o cara a traía lá, coisa e tal. Situação muito complicada.

Em certo momento, essa infantilidade fica clara, quando o pessoal da polícia chega no apartamento e revela um verdadeiro arsenal que o dono da Yoki (a vítima, no caso) mantinha em casa. Todos eles tiram fotos e agem como se fossem brinquedinhos. Lembrou a cena do Narcos (acho que a segunda temporada), em que eles invadem a La Catedral e acham as armas do Escobar. Falta seriedade e propriedade, bem como equilíbrio.

Histórias desenroladas naquele tom lento habitual

Dessa vez, não tiveram a cara-de-pau de enrolar a coisa por mais muitos episódios, foram apenas quatro episódios e tá tudo certo. Mesmo assim é muita coisa, essas séries investigativas da Netflix são campeões em enrolar a coisa. Eles jogam com as informações, falam coisas só no terceiro ou quarto episódio, etc etc, para prender o espectador. É justo, a série é boa e divertida, mas o fato é que essas informações fariam um ótimo especial de apenas uma hora, com toda a certeza.

Então eles vão lá, entrevistam daqui, enrolam dali, mostram a cidade onde a Elize nasceu, explorando as diversas implicações da trama. Mostram o passado ruim e de pobreza da moça, o assassinato cruel, se ela esquartejou vivo ou não (os legistas discordam quanto a isso) e muitos outros detalhes. Para quem gosta de saber sobre crimes, é um prato cheio.

Fico me perguntando o que levou a assassina a se abrir assim desse jeito. Lógico que é uma cilada. Para que expor o rosto assim dessa forma? Vai entender. Acho que a equipe da Netflix enrolou ela. Poderia ficar numa boa, cumprir sua pena e se misturar às massas. Mas agora ela fica marcada e entra numa polêmica. Não há como lutar contra a mídia, eles fazem o que quiser com você, então acho que ela foi ingênua achando que foi dar "a sua versão". Enfim, problema dela também.

As versões sobre o crime

O julgamento foi basicamente uma luta entre duas versões: a de acusação, que diz que ela premeditou o crime como vingança pela traição (o cara estava pra largar ela e ir com outra, após embolsar a grana da venda da Yoki); ou então uma reação de momento, após discussão e ameaças, a versão da defesa. A série gira em torno disso e adiciona detalhes e explicações sobre o crime.

Enfim, é uma série interessante para entender o psicológico de um assassino (que, na verdade, pode ser uma pessoa mais normal do que parece), as circunstâncias de um assassinato, como todos em volta não estão nem aí pra isso (exceto, talvez, os parentes), e como tudo parece um jogo. E também, claro, um circo midiático, a imprensa explorou essa história até não poder mais.

Nota: 4/5

Nada muito a dizer, não é uma série brilhante, o grande trunfo dela é entrevistar a própria assassina. Ela explica bem as coisas, é clara e é muito bem editada. O fato de ser uma série relativamente enxuta e ficar só em quatro episódios facilita muito, foi uma boa opção. O que temos visto é, quase sempre, eles enrolando por muitos episódios e até fazendo temporadas, para casos que às vezes nem valem uma hora de filme. Bom documentário, achei razoavelmente sóbrio e talvez até neutro, vale a pena ver.


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