Gosto do intangível na música (e nas artes no geral)

É muito provável que eu devesse fazer uma pesquisa um pouco mais aprofundada sobre o que eu quero falar abaixo, pois envolve questões sobre Estética (sobre arte, vai...) e, talvez, fosse interessante cruzar com o que já foi dito sobre o assunto. Porém isso envolveria um trabalho colossal (todo trabalho é colossal com este calor que está fazendo), e ficaria um texto longo, pedante e inútil, então só vou tentar expressar as coisas que eu penso e tenho pensado sobre música.

Não só sobre música, mas sobre artes no geral. Isso inclui cinema, literatura e, bem, qualquer coisa. Me chame de autista, de introspectivo, mas eu gosto daquela sensação única, própria, de olhar para um canto e notar só uma coisa, uma coisa pequena, inútil, só minha, e que me dá uma sensação que dificilmente possa ser posta em palavras. Para mim, este é o valor mais precioso das artes, e me chama a atenção especificamente na música.

Eu quero ter o direito de achar o que eu quiser

Acompanho o Metallica desde os idos lá dos anos 1990, não sou daquela geração headbanger que conhecia a fundo os discos primordiais (que hoje são considerados essenciais), eu sou mais geração "nutella" mesmo, daqueles que conheceu a banda a partir do chamado "Black Album", de 1991. Não que eu ache um puta disco, mas é um disco do qual eu gosto muito, e que para mim simboliza uma época.

Não adianta vir com papo pra mim, eu não consigo me ligar com os primeiros discos do grupo. "Master! Master!", grande bosta meu amigo, devo ser o mais herege do mundo, mas essa música é chata pra carvalho. Eu tenho pra mim que essa música não vai pra lugar nenhum, não tenho conexões emocionais com ela, nada, é uma música ok, mas para mim não tem nada de mais.

E eis que resolvo me arriscar aqui no disco do Metallica de 2016, o "Hardwired... to Self-Destruct" (sim, tem essas reticências mesmo), e porra, gostei bastante do som. E é aí que tá, tem algo intangível nele que eu não sei muito bem descrever, e que naquele momento me colocava ele como o disco mais importante do mundo (ou, pelo menos, da carreira da banda).

É como se, por alguns instantes, toda a objetividade (seja lá o que isso significa) fosse colocada de lado, e todas as minhas impressões naquele momento tivessem primazia. O que eu gosto, afinal, nesse disco? A nitidez, o peso, a bateria única, certa "pegada", sei lá... é difícil decifrar.

Existe algo muito próprio, uma "melancolia", não só neste caso, mas em muitos outros, que para mim coloca a arte num outro patamar. Não importa o que eu estou ouvindo, fazendo, lendo, se eu consigo me conectar com isso, sem demais interferências, para mim é uma coisa muito preciosa. E eu acho que análises "objetivistas" demais perdem isso. Ou seja, perdem o que há de melhor.

E não tem só isso. O que eu falei acima é meio abstrato, mas há também as ligações das coisas com as nossas memórias. Quantas vezes, na minha infância, um som tal acompanhou aquele momento da minha vida, e tem aquele significado só pra mim? Então este significado é uma mentira, frente a uma análise técnica, fria, sem vida da coisa? Eu prefiro o primeiro caso.

As emoções cumprem um importante papel, não adianta falar que a música do Metallica tem isso, tem aquilo, tem o solo de tal jeito, o baixo daquele outro, se você não sente "raiva", se essa emoção não compõe o seu leque de emoções. O ser humano também tem que ser um instrumento junto com a música, e tentar comportar o máximo de emoções possível. Este é o grande privilégio que a arte nos dá.

A arte expande nossa vida e, por isso, não gosto de ficar só numa análise tecnicista, fria, objetivista, buscando verdades absolutas. Não se trata de um subjetivismo vazio, pois sempre tem o material da banda como referência. Nunca é um fechar-se em si mesmo. Pelo contrário, é um abrir os ouvidos para a música. Tentar aprimorar a sensibilidade!

E a que isso leva?

Pois é, este tipo de raciocínio, ainda que não muito bem desenvolvido acima, tem importantes consequências. Em primeiro lugar, eu sou obrigado, pela lógica acima, a aceitar atrocidades do tipo "funk carioca". E por que isso? Bom, se eu quero ser coerente, sou obrigado a aceitar que este mesmo processo acima (de introspecção, de ligação com sentimentos), pode acontecer com qualquer ritmo. E isso não tem uma ligação necessariamente direta com atributos técnicos.

O funk, fenômeno sociológico ainda muito desprezado no Brasil (pelo seu tamanho, deveria receber muito mais atenção), possui agressividade e uma sensualidade explícita, sem grandes nuances e na sua cara. Ele vai direto ao assunto. É quase pornográfico. O visual envolve uma moda que surgiu décadas atrás e hoje continua, mostrando muito o corpo. Se a música não tem interesse, o seu ambiente pelo menos é de uma exuberância bastante interessante.

Mas enfim, isso é só um exemplo dentre muitos vários que poderiam ser abordados. O fato é que separar diversão, arte, entretenimento, é um pouco raso, qual o limite entre todos? As linhas são muito tênues e se desfazem o tempo todo. A arte tem que ter um pouquinho de entretenimento, ou não há quem aguente. O entretenimento tem a arte, basta você ouvir o que ele tem a dizer.

É isso mesmo, ouvir as coisas. Acho que aí é que está o desafio maior. Calar os seus preconceitos, as suas opiniões já pré-formatadas, e referir-se às coisas mesmo. Não é um desafio fácil e ir a ele de qualquer jeito torna-se uma tarefa mecânica (e também pedante, como se as obras fossem estudos sociológicos, frios), então também não é pra ser abordado de qualquer jeito.

De qualquer forma, isso nos leva a respeitar toda e qualquer manifestação. Se você ouve o ritmo mais perdido da história do mundo, e ele lhe acrescenta esteticamente, eu te celebro, meu amigo. Mas o problema é a indústria cultural que exagera na dose, e oferece só um tipo de coisa. Mesmo que essa coisa mereça o seu espaço, ela tem um maior espaço por fatores mais comerciais. O que é empobrecedor.

A arte e as nossas vidas

É muito difícil definir o que é arte e muita gente já gastou rios de tinta tentando falar sobre o assunto, provavelmente para não chegar em lugar algum. Então vou pegar apenas mais uma das milhares de definições arbitrárias que o termo comporta e somente dizer: arte é tudo aquilo que não está subjugado pelo caráter da utilidade. Ou seja, arte é a inutilidade tomada como algo sério.

Quando o macacão lá em sei lá quantos mil anos antes de Cristo pintava umas corzinhas na sua cerâmica, ele estava fazendo arte. E por quê? Porque ele não precisava fazer aquilo. Fez para expressar algo. O quê? Sei lá. Algo.

Então a expressão artística é a expressão do intangível, querendo causar um efeito intangível, através do tangível. Falei bonito, hein? E isso engrandece as nossas vidas, nos tiram dessa órbita animal e imediata.

A arte pode comportar muitas coisas e ela está em todos os lugares. "Homo artisticus", talvez.

(Descobri que tem um livro lançado acima com esse nome, parece que uma tese aí de alguém. Juro que não copiei).

Considerações gerais e demais cagações de regra

Pois é, eu na verdade não sei muito bem qual foi o meu objetivo com esse texto. Acho que expressar um pouco as minhas frustrações e limitações com a arte. Eu acho que tem coisas por aí esperando pela gente, para serem vividas. A arte é um modo de abrir a sensibilidade e não um tecnicismo estéril. Ainda que não seja um vale-tudo (pois ele tem a matéria como referência), ele comporta muita coisa. 

Arte e vida não podem ser separadas. A arte morta, pedante, técnica, descritiva, embota a sensibilidade e cansa a gente. Toda arte envolve um pouco de ignorância. Saber demais às vezes estraga a mágica, e com certeza explicar a piada não nos leva a nada.

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