O dia em que o Iron Maiden plagiou a Vovó Mafalda

É isso aí, meus amigos, vamos falar sobre o novo disco do Maiden, o "Senjutsu", que vem aí abalando corações e dividindo as críticas. E também, é claro, vamos falar das estranhas semelhanças da Donzela com a primeira crossdresser da tevê brasileira, a nossa gloriosa Vovó Mafalda. Vamos lá.

Tumbalacatumba tumbatá

Se você for um infante, que por acaso deu o azar de estar me lendo, provavelmente vai associar a música acima com a Galinha Pintadinha, que fez uma versão recente e irritante do clássico. Mas eu, que já acumulo mais anos de vida, associo com a Vovó Mafalda, estrela da televisão brasileira infantil nos anos 80 e 90.

Neste momento, digito no Spotify o nome dela, para ver se existe a página do artista na plataforma. (Espera enquanto eu digito... sim, tem a página dela, com cerca de 170 ouvintes mensais). Bom, mas enfim, não é sobre ela que estamos aqui para falar, mas sobre o novo (e ótimo) disco do Maiden, o "Senjutsu".

A melhor música do álbum, que na minha humilde opinião é a "The Writing on the Wall", se parece muito com a música aqui citada da Vovó Mafalda (ou Galinha Pintadinha, ou Atchim e Espirro... escolha o seu artista infantil de preferência). Note como a parte de guitarra no começo, que tem até um ar "country" bem pronunciado, soa melodicamente como o "tumbalacatumba tumbatá". Não que isso diminua a música, mas é uma curiosa semelhança.

Há quem já tivesse apontado a semelhança entre "Aces High", clássico da banda, também com músicas da Xuxa dos anos 80. A grande verdade é que todos esses compositores que embolsavam uma grana compondo para artistas infantis na década, eram todos fãs de heavy metal, com grande habilidade na guitarra. Podemos citar, por exemplo, o antológico Robertinho do Recife (provavelmente um dos maiores guitarristas brasileiros), que produziu a Xuxa e já gravou com o Trem da Alegria.

Então as relações, talvez, não sejam tão casuais assim. "Tumbalacatumba tumbatá" e vamo embora, afinal.

Mas a música é muito boa, assim como o restante do disco. "The Writing on the Wall" também conta com um excelente vídeo lançado no YouTube, com o mascote da banda fazendo uns troços bem loucos e com um visual ótimo. Vale a pena ver.

Guitarrinha de karaoquê

Vi uma resenha por aí que acusa a banda de, na falta de criatividade nas linhas da guitarra, somente repetir a melodia dos vocais, o que deu um efeito de "karaoquê" para a banda. Bem, não é um tema oriental, japonês? Então acredito que este efeito esteja dentro da temática escolhida.

Além disso, essas críticas são algo cômicas pelo fato de a pessoa estar dando "indicações" para a banda ser, afinal, ela mesma. Como se fossem "sommeliers" de Iron Maiden, tendo captado a essência da banda mais que a própria. Que troço maluco! Faz parte da trajetória de uma banda as mudanças de som. Só o fã de metal xiita não percebe isso.

Claro que criticar e tocar são coisas diferentes, mas existe algo de patético e cruel, em se colocar num trono superior da crítica, e apontar dedos para o que deveria ou não deveria ter sido feito. Daqui a pouco o cara não vai poder tocar nada, porque "tal coisa é ridícula por motivo tal", sem perceber que cada opção musical vem com prós e contras, e o artista está sempre assumindo riscos.

Da minha parte, o sonzinho de karaoquê complementa muito bem a canção, dá brilho e sublinha os vocais, então não vejo nada de errado com isso. E mesmo que eu visse, eu não sou o Iron Maiden, então talvez eu devesse abrir a minha sensibilidade e tentar entender esses caminhos tomados pela lenda do metal, em vez de ficar procurando pelo em ovo. Nem sou um músico gabaritado pra criticar (aliás, nem músico sou, a não ser que "dó ré mi fá" tocado errado no piano conte), então não caberia entrar nestes detalhes.

Então me incomoda um pouco essa certa arrogância dos críticos, querendo se colocar acima da banda, quando na verdade eles jamais seriam capazes de lançar uma música com 10% da empolgação que eles tem (ou com a mesma qualidade).

O disco é bom, mas vai ter música longa assim na casa do kct

Pois é, acho que o Iron Maiden tá achando que é o Pink Floyd, ou o Rush, e as músicas tem sido longuíssimas, neste disco acho que não tem nenhuma música com menos de seis minutos, e essas são as mais curtinhas. Na verdade, a edição em LP acredito que vá ser tripla, o que é uma coisa absurda, disco realmente longuíssimo.

As comparações com o Rush também não são casuais, sempre achei que as duas bandas possuem pegadas muito parecidas. O Maiden sempre foi muito parecido com certas bandas de prog do que com muitas outras de metal, e essa opção tem ficado mais clara nos últimos discos. Classificações à parte, as músicas tem ficado complexas, cheias de variações, com solos intrincados, e bem longas. 

Não sei se este é exatamente um defeito, o disco melhora após a segunda ou terceira audição (quando o som é um pouco mais assimilado), ele tem ótimos momentos e fica bem empolgante. É um pouco repetitivo e cansativo no entanto, ouvi dizerem que ele é melhor aproveitado numa audição de uma tacada só, mas achei que isso é bem cansativo.

De qualquer forma é um disco que poderia ser um pouco menorzinho, talvez. Ou não, pode ser assim também e tá muito bom. Mas numa primeira audição dá uma estranhada, além de cansar.

Prato de condução

Muitas bandas de heavy metal, incluindo o Maiden, utilizam na bateria muito mais o prato de condução (que é aquele prato com um som mais "fininho" e preciso) do que o tradicional chimbau, que é aquele prato que dá um som mais cheio, mais aberto. Malcolm Young, guitarrista do AC/DC, já disse algumas vezes que o som do metal é "engessado", e que seria menos rock'n roll por não utilizar o chimbau no som.

Enfim, questões teóricas à parte, o fato é que o som da banda faz uso extenso do chamado prato de condução, o que dá um som bem diferente de bandas como o AC/DC (que é mais dançante, enérgico), e isso é interessante de se notar. Na verdade é só isso mesmo, achei isso interessante e enfiei aqui.

Nota: 4/5

Nota isentona tradicional, esta é a nota que eu dou sempre quando não sei mais que nota dar. Então eu já digo aqui para nem levar a sério esta nota. Se você quiser considerar um disco 5/5, fique à vontade, eu não vou discordar de você, pois é um excelente disco. As semelhanças com a Vovó Mafalda não são demérito, pelo contrário, a música semelhante é uma das melhores do disco.

A Donzela de Ferro vai chegando à terceira idade em grande forma, que venham outros discos. Este aqui não decepciona e sua audição é muito prazerosa, ainda que um tanto longa. Vida longa ao Maiden!

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