Power UP (AC/DC) - review mais detalhado (ou quase isso)
Ok, como eu já havia previsto (mas que frase pretensiosa...), o álbum realmente cresceu com o tempo e hoje eu posso quase, quase, dar um 5/5 pra ele. Não que minha nota faça alguma diferença neste mundo conturbado (e não que alguém ligue, ou que minha opinião seja "qualificada" ou coisa do tipo), mas só pra dizer que o álbum cresceu com seguidas audições e hoje considero-o melhor do que da primeira vez que eu ouvi.
AC/DC é essa banda que, nos álbuns clássicos, pega você de jeito logo de cara (como o famoso Back in Black, que é praticamente um orgasmo musical), e nos álbuns comuns do dia-a-dia, ele pega você com o tempo (soando apenas "ok" num primeiro momento). Essa banda tem a estranha característica de soar tudo igual e diferente ao mesmo tempo, é realmente uma peça musical cheia de sutilezas.
O som é quase perfeito, é rock executado muito perto do que seria a essência mais pura dele (como a mais absoluta perfeição mesmo), e a mixagem aqui valoriza isso ao extremo. Talvez, apenas talvez, a voz do Brian esteja soando um pouco para o fundo, mas isso talvez seja exagero ou incompreensão, ou apenas meu fone de ouvido que não transmite o som todo em sua glória (um Bose mequetrefe do século retrasado e já todo rasgado).
Bom, mas vamos lá. Ao contrário das primeiras impressões que já postei aqui, vou postar uma análise faixa a faixa, pois já as ouvi provavelmente algumas dezenas de vezes e agora já estou mais familiarizado com elas.
Na ordem do disco (e não na ordem de preferência):
Realize
Essa foi uma das músicas lançadas antes do lançamento mesmo do álbum (alguns dias antes dele) e eu confesso, num primeiro momento não achei nada de mais com ela. Não sei se fiquei frustrado, pois é difícil se frustrar com qualquer coisa do AC/DC (que se não é sempre muito bom, é sempre competente), mas foi um pouco aquém do esperado. Mas "oh boy", como essa música cresceu com o tempo...
Não considero uma das melhores do álbum (não por demérito dela, mas pelas outras que são excelentes), mas é uma música muito boa. Considero-a "climática", antes de tudo, com riffs cheios de reverberação, backing vocals emocionantes e grandiosos, e um som apoteótico no geral. Não tem grandes riffs marcantes, nem uma melodia que chama a atenção, mas o clima dela (bem como a execução típica do AC/DC) faz todo o jogo.
Ela é uma boa faixa de abertura de disco, dando o clima empolgante dele, soando um pouco mais leve (para os padrões "eicidianos"), e conduzindo os trabalhos de maneira geral. Muito boa!
Nota: 8/10.
Rejection
E aqui começa o som mais marcante do AC/DC propriamente, com riffs "gordos" e bem encorpados. Não sei se sou só eu, mas Brian (que aqui soa excelente nos vocais) dá um pouco de drama nessa música, como se fosse uma música antiga "dor de corno", ou alguma coisa assim. Mas no bom sentido da coisa.
A letra desenvolve para algo mais "badass", falando que vai detonar quem rejeitar o protagonista, etc. Os riffs complementam bem a música, que soa "seca", bem no melhor estilo da banda, soando como um álbum antigo deles, mas ao mesmo tempo soando contemporâneo. Excelente música! Mas que não está entre as melhores do disco, na minha opinião.
Os solos de Angus são econômicos e bem feitos, cheios de feeling. A mixagem dança pelos ouvidos (se você está de fones), os timbres de guitarra perfeitos alternam os lados no som e isso é uma maravilha.
Enquanto Realize abriu mais climática, essa aqui já vai para o rock mais tradicional mesmo, com ótimos riffs e a voz dramática do Brian, em ótima forma aliás (o bicho tem 73 anos e tá mandando muito bem).
Nota: 8/10.
Shot in the Dark
O single do disco e o que recebeu um clipe muito bacana. Provavelmente a melhor do disco, ou uma das melhores, mas que não deve enganar, pois ele ainda tem muitas outras "pérolas".
Refrão marcante, a guitarra vai em tempo médio, saboreando uns riffs meio quebrados, no melhor estilo do Malcolm (aqui imitado pelo seu sobrinho, Stevie), enfim, música deliciosa, com um ótimo solo do Angus.
Nota: um 9/10 que quer ser 10/10, mas se eu dou 10/10, ofusco as demais do álbum. Então, 9/10.
Through the Mists of Time
Talvez a música mais diferentona do disco, soa quase como uma balada. E digo "quase", é claro, pois seria uma balada nos padrões do AC/DC (o que sequer seria uma balada para outras bandas). Refrões emocionantes, uma harmonia entre as guitarras e baixo maravilhosas, que se misturam de maneira incrível, dando um "climão" logo na abertura da música.
A música, como já foi dito por aí, soa quase "punk", não no sentido do punk tradicional, mas aqueles mais melódicos que tinham no início dos anos 80. Mas ainda assim é um hard rock maravilhoso, soando nostálgico e um pouco melancólico. Nada mais de acordo, considerando as perdas que a banda teve recentemente (o falecimento do Malcolm, a quase surdez do Brian e o consequente fim da banda, que felizmente não aconteceu).
Música excelente que faz a função de dar uma variada no disco, adicionando um inesperado tom melancólico a ele. Não chega a ser uma música triste, ainda tem a característica alegre da banda, mas tem algo de melancólico e muito bonito. Com destaque para o arranjo marcante do início e que se repete pela música.
Nota: 8/10 isentão, que não se compromete com nada.
Kick When You're Down
O destaque é o refrão marcante e imediatamente chicletento, delicioso. As letras falam de superação e de reação à covardia de, bem, ser chutado enquanto você está no chão ("down"). Bem dentro do universo temático da banda, com temas como revanche e superação, o que é ótimo.
A música soa quase como algo de outra banda, não do AC/DC, o que é uma tremenda burrice também, porque bem, este é o AC/DC de fato. Mas ele varia um pouco do esquema "riff marcante", tendo mais destaque no refrão mesmo, que se repete umas quarenta vezes.
Brian soa totalmente badass aqui, como aliás em todo o disco. Uma excelente música, vou dar um 9/10 porque o refrão realmente é muito bom. Mais uma vez, o disco soa variado por causa dessas pequenas mudanças aí no estilo das músicas (uma com mais ênfase em riffs, outra mais no refrão, etc).
Nota: 9/10 então.
Witch's Spell
Uma das músicas mais underrated do disco (aliás, esse disco já nasceu underrated de cara, o que é uma coisa incrível), considero-a um dos destaques. Aliás, uma das boas características desse disco é o uso bem generoso de backing vocals bem altos, o que eu achei uma bela sacada.
O som soa quase como aquela coisa da gravadora Motown, aquele som antigo com backing vocals cheios, no melhor estilo da soul music. Então eu acho que esse disco, aqui, tem bem esse elemento.
Isso se repete aqui e abrilhanta os vocais fodásticos e muito inspirados do Brian. E puta que pariu, pensar que este cara ainda está cantando muito, é algo incrível.
Riffs totalmente badass aqui, a música abre com um climão excelente, com uma parte de guitarra bem trabalhada, soa meio dramático pelos vocais, e depois se resolve com linhas incríveis na guitarra e totalmente underrated.
Vou meter o primeiro 10/10 aqui, porque acho essa música muito underrated, ótima linhas de guitarra no início e depois uns riffs muito bons.
Demon's Fire
Outro grande destaque do disco, vai fazer muito sucesso quando (e se) a banda voltar a fazer shows, e se essa pandemia também acabar um dia. É sua tradicional música do AC/DC, muito boa, com Angus fazendo a escala na guitarra, mas soando muito bem. O ritmo é um pouco mais acelerado e os refrões são ótimos.
Brian aqui canta um pouco mais grosso em alguns momentos e isso também é ótimo e, no geral, é uma grande música, na sonoridade própria e já conhecida da banda.
Nota: 10/10, é uma música foda, e apenas isso.
Wild Reputation
Outra música absoluta e injustamente avaliada aí por muita gente (das que eu li por aí), é uma das melhores do disco, com um dos riffs mais bem sacados de todo o álbum. Os irmãos Young colhiam riffs como se fossem plantas jogadas num jardim, eles soam extremamente simples, mas ao mesmo tempo geniais, o que é um mérito raro de se ter.
A estrutura de repetição do riff (simples ao extremo) cria um efeito hipnótico, e junto com a chamada "cozinha" da banda (que clichê chamar isso de cozinha, mas enfim), faz aqui uma das melhoras faixas do disco, na minha opinião.
A mixagem tem alguns detalhes interessantes, os backing vocals pontuam alguns momentos, as guitarras dançam pelos dois lados do som, Brian faz uns graves em alguns momentos, enfim, uma música ótima.
Nota: 10/10, os que falaram que é a pior do disco estão completamente enganados, é uma das melhores do álbum. Riffs muito bons.
No Man's Land
Outra música excelente, com um riff ótimo crescendo a tensão aos poucos, e soando glorioso em algum momento. A guitarra é ótima, soa quase "nordestina" (ouça e você vai entender, tem uma melodiosidade que é quase um "baião"), e ela vai crescendo e acrescentando instrumentos de uma forma ótima.
Essa é uma outra que os sabichões e "sommeliers" de AC/DC cometeram o pecado de falar que era ruim, ou apenas filler, e eu discordo completamente, é uma música ótima do disco também, com uma ótima construção, letra badass falando de "trens noturnos" e "terras de ninguém", enfim, outra ótima também e um destaque injustiçado.
Nota: 9/10.
Systems Down
Outra música boa, mas que por comparação eu coloco abaixo das demais do disco, mas apenas por isso, porque ainda a considero ótima. Tem um ótimo refrão e boas guitarras, se bem que dizer "boas guitarras" para uma música do AC/DC é completamente redundante.
Enfim, uma ótima música, mas que eu não vi toda essa qualidade que muitos viram, e por comparação, situo abaixo das outras do disco. Não achei nela nenhum grande riff e o refrão não me chamou tanto a atenção como o das outras músicas, mas ainda assim é ótima e Brian tá mandando muito bem (outra redundância, porque ele manda bem o tempo todo).
Nota: 8/10, não se destaca, mas também não compromete. E o solo é ótimo.
Money Shot
O disco volta a crescer de novo, com essa música que, para mim, é uma das melhores do AC/DC em anos. Riff maravilhoso e ultrassimples, letras com sentido duplo ou triplo (pode significar, dentre outras coisas, "injeção de dinheiro", "foto ótima" ou "ejaculação no rosto"). O climão dela é inigualável, Brian aqui está cantando muito e o refrão é muito bom.
Quando a música fica mais calma, e depois volta para o riff, soa quase como algo dos anos 70, um som clássico e atemporal, algo incrível.
Vai um 10/10 merecido, para mim uma das melhores do disco.
Code Red
E o disco fecha em ótima forma, com essa música que lembra um pouco Back in Black e tem um riff excelente. Muita gente reclamou que o refrão é anticlimático (soando banal), mas eu achei ótimo, tem até um certo "efeito cômico" se você notar, que foi muito bem-vindo, fechando com ótimos backing vocals também. O riff aqui está do caralho, genial e simples, como foi ao longo de várias músicas do disco.
É uma música, basicamente, dirigida pelo seu riff fodão e o refrão que dá uma quebrada, cheia de backing vocals para cantar junto, enfim, uma excelente canção.
Tenho vontade de dar um 10/10, mas acho que, em comparação com as demais, fica mais para um 9/10 mesmo.
Um dos trabalhos mais sólidos do AC/DC
Então tá aí, esse foi um disco que cresceu muito ao ouvi-lo por mais e mais vezes, um ótimo trabalho que talvez não se compare com um Back in Black da vida (é claro), mas aí é também covardia, pois Back in Black é um clássico absoluto da música mundial.
Já cansei de ouvir merdas do tipo, "ah, eles fizeram um som digno", "o competente som do AC/DC", "um som honesto" e outros clichês deploráveis. Todos eles ignoram o seguinte: que, este aqui, é um excelente disco por seus próprios méritos.
Pouco importa se a banda quase acabou, que eles deram a volta por cima, que isso ou aquilo. É claro que é ótimo ver que eles conseguiram se reunir para mais um trabalho, mas isso sempre soa como uma certa "concessão", para um som que não seria exatamente superior, soando apenas "ok". Acho que é uma análise errada.
O som do AC/DC, por mais que isso soe contraditório, é um som difícil. Difícil de executar, na sua simplicidade, e difícil de escutar, pelo mesmo motivo. Todos os seus conceitos precisam ficar de fora, na hora de botar pra tocar o excelente som da banda. Só assim, abrindo a sensibilidade para a proposta deles, realmente o melhor do seu som pode ser apreciado.
Muita gente falha em entender isso, fica se atendo a detalhes secundários, sem perceber o som maravilhoso guiado por riffs, sensações, voz cheia de soul e uma atitude cheia de energia. Todos os neurônios vibram ao mesmo tempo em puro prazer ao ouvir o som perfeito do AC/DC.
Então é isso, os meus dois centavos aí sobre esse disco que já nasceu subestimado, e que eu pude ouvir com mais atenção. Vida longa ao AC/DC! Só espero que, assim que possível, eles consigam fazer shows, para eu poder vê-los ao vivo.
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